Refm do Amor

"The Outback Marriage Ransom"

Emma Darcy



(Os Cavaleiros do Outback 1)




- Com licena, Sra. Chappel, h um rapaz  porta...
- Voc sabe que no posso receber visitas hoje, Sra. Keith - ela falou, balanando na cadeira, com o olhar fixo nos motivos de Walt Disney colados na parede, e sorriu 
para Branca de Neve. Ela certamente comeu uma ma envenenada ao se casar com Gary Chappel. E no havia ningum para salv-la. Ningum.
- Ele insistiu muito. Um senhor Ric Donato... O corao de Lara entrou em choque.
- Quem? - perguntou, sem aceitar o que ouviu.
- Disse que se chamava Ric Donato. Ele me pediu para entregar-lhe isso. - Marian Keith entrou no quarto e mostrou o envelope para Lara. - Est esperando  porta. 
Disse que a senhora gostaria de conversar sobre o contedo com ele, Sra. Chappel.

Digitalizao: Ana Cris
Reviso: Crysty



Querida leitora,

Nesta apimentada minissrie, voc vai conhecer Ric Donato, Mitch Tyler e Johnny Ellis, trs adolescentes rebeldes que, aps julgamento, foram mandados para um reformatrio 
no deserto. E sobreviveram  dura experincia com muito sucesso, tornando-se grandes amigos e homens ambiciosos, que no medem esforos para conquistar o mundo e, 
principalmente, as mulheres de suas vidas.
Agora, Ric deve retornar ao deserto para lutar por Lara Seymour, sua antiga paixo.
Descubra o que ele ser capaz de fazer para conquistar Lara. E no perca no prximo ms mais histrias de Ric, Mitch e Johnny!

PRLOGO


Primeiro dia em Gundamurra

O avio pousava em uma pista vermelha empoeirada. Alm das construes que demarcavam o rancho de criao de ovelhas de Gundamurra, no era possvel ver qualquer 
outra habitao at a linha do horizonte, apenas uma imensa paisagem vazia, pontuada pela vegetao de cerrado. Ric queria que ainda tivesse a cmera que roubara. 
Poderia tirar umas fotos inacreditveis ali.
- O meio do nada - murmurou Mitch Tyler. - Comeo a achar que fiz a escolha errada.
- No - Johnny Ellis se ops. - Qualquer coisa  melhor do que ficar confinado. Pelo menos aqui podemos respirar.
- O qu? Poeira? - caoou Mitch.
O avio aterrissou, levantando uma nuvem de p.
- Bem-vindo ao grande deserto australiano - falou o policial que os acompanhava, ironicamente. - E lembrem-se... se os trs espertinhos da cidade quiserem sobreviver, 
no h para onde escapar.
Os trs o ignoraram. Tinham 16 anos. Independentemente do que a vida aprontasse para eles, sobreviveriam. E Johnny estava certo, pensou Ric. Seis meses trabalhando 
no rancho de criao de ovelhas seriam melhores do que um ano em um reformatrio. Ric no suportava excesso de autoridade. Esperava que o homem que gerenciava aquele 
lugar no fosse do tipo tirano, que se aproveitasse para fazer deles trs escravos.
O que o juiz determinou na sentena? Algo sobre resgatar valores. Um programa que os ensinaria o que era a vida real. Em outras palavras, voc trabalha para viver, 
e no para tirar das outras pessoas. Fcil para ele dizer isso, sentado atrs de sua bancada, com seus cabelos fofos, seguro em sua roupa oficial.
No havia segurana no mundo de Ric.
Nunca houve.
O roubo era a nica forma de conseguir as coisas. E Ric queria muitas coisas. Mas roubar o Porsche para impressionar Lara Seymour foi estupidez. Agora a perdera. 
Isso era certo. Uma menina de vida privilegiada sequer consideraria um criminoso como namorado.
Um homem esperava ao lado de um Cherokee quatro por quatro. Um homem grande, de ombros largos, peito estufado, rosto fechado, cabelos ruivos. Devia ter uns cinqenta 
anos, mas ainda parecia forte. No era algum possvel de desafiar, concluiu Ric, apesar de o tamanho no significar muito para ele. Se o cara encostasse a mo nele...
- Um verdadeiro caubi - murmurou Mitch, em seu tom sarcstico habitual. Mitch era extremamente rabugento. Morar perto dele poderia ser realmente cansativo.
- No h cavalos - ressaltou Johnny, sorrindo.
Seria bem mais fcil lidar com ele, pensou Ric.
Johnny Ellis provavelmente usava a afabilidade como instrumento para se proteger, apesar de ser grande e forte o bastante para brigar com qualquer um. Tinha olhos 
castanho-claros amigveis, um sorriso largo de presta-bilidade e cabelos castanhos queimados de sol que caam sobre sua testa. Foi pego vendendo maconha, apesar 
de jurar que era somente para uns msicos, que compraram de outras pessoas.
Mitch Tyler estava em situao bem mais difcil, culpado de um ataque srio a um rapaz que, segundo ele, namorou e violentou sua irm. Mas ele no levou esse argumento 
adiante no tribunal. No queria arruinar a irm tambm. Era magro, de estatura mediana, tinha cabelos pretos, olhos azuis, e Ric sentia que ele exalava violncia 
o tempo todo.
Ric era mais moreno. Herana tipicamente italiana. Cabelos negros encaracolados, olhos quase negros, pele bronzeada, o tipo de boa aparncia latina que atrai as 
mulheres. Qualquer uma que quisesse. At mesmo Lara. Mas a aparncia no foi o suficiente em sua vida. Precisava de dinheiro. E tudo que o dinheiro pudesse comprar. 
Seria a nica forma de mudar de classe social.
O avio parou.
O policial mandou que eles pegassem suas bolsas. Alguns minutos depois, ele os conduzia para um tipo de vida bem diferente do que conheciam.
A apresentao deixou Ric nervoso.
- Aqui esto seus rapazes, Sr. Maguire. Diretamente das ruas da cidade para serem colocados em forma.
O senhor grande - ele era realmente grande - olhou duramente para o policial.
- No  assim que fazemos as coisas aqui. - As palavras foram ditas com suavidade, mas carregavam uma autoridade que desprezava qualquer necessidade de abuso fsico.
Ele balanou a cabea para eles, oferecendo um certo respeito.
- Sou Patrick Maguire. Bem-vindos a Gundamurra. Na linguagem aborgine, isso quer dizer "Bom dia". Espero que todos vocs sintam que o dia em que pisaram aqui tenha 
sido um bom dia.
Ric se pegou desejando apostar nisso. Brigar contra a situao no traria benefcios.
- E voc ... - Patrick Maguire estendeu uma grande mo para Mitch, que olhou desconfiado para ela, como se fosse quebrar seus ossos.
- Mitch Tyler - respondeu, estendendo a mo de forma desafiadora.
- Muito prazer, Mitch.
O aperto de mo foi normal, sem tentativas de dominao.
Johnny estendeu a mo sem hesitao.
- Johnny Ellis. Muito prazer, Sr. Maguire. - Ele sorriu para o senhor, demonstrando seu charme. Johnny estava se soltando rapidamente.
Uma expresso de indagao no olhar sombrio e duro como ao, acrescido de um toque divertido. Ningum  tolo assim, pensou Ric. Ele mesmo j foi alvo de olhares 
recriminadores que ultrapassaram todas as fachadas criadas.
- Ric Donato - disse ele, aceitando a mo estendida, sentindo a fora dela e um calor que acabou com um certo senso de alienao que havia em Ric.
- Prontos para ir? - perguntou o senhor.
- Sim. Estou pronto. - Ric foi mais agressivo do que esperava.
Pronto para voltar para o maldito mundo um dia.
E por cima.
Talvez at com Lara.
Ainda no conseguia tir-la da cabea. Provavelmente no conseguiria. Classe... era o que ela tinha. Inatingvel para Ric no momento, mas ele chegaria l. De uma 
forma ou de outra, chegaria onde queria.




CAPTULO 1

Dezoito anos depois...
Ric Donato sentou-se com sua assistente, Kathryn Ledger, no escritrio de Sidnei, para ver fotografias que mostravam as celebridades do Prmio da Indstria Cinematogrfica 
Australiana. Aquele foi o grande evento da semana. Fotgrafos autnomos - alguns com reputao, outros paparazzi - enviaram-nas para a agncia pela Internet. Sua 
equipe as analisava para escolher as que seriam vendidas para as revistas de todo o mundo.
Sempre com classe, Ric pensava com considervel ironia. Era isso o que sua rede de agncias vendia na Austrlia, em Los Angeles, Nova York, Londres. Havia uma legio 
de contatos vida por tirar proveito da fama que ele tinha.
As realidades implacveis que ele fotografara como jornalista de guerra fizeram com que ganhasse prmios e respeito em alguns locais, mas o apelo dessas fotografias 
era muito limitado. Ele aprendeu da forma mais dura que eram as fotos belas as mais vendidas. As pessoas queriam ver categoria. Elas se divertem com isso. Do as 
costas ao sofrimento.
O enfoque nessas fotos compensava para os dois lados do mercado. Os ricos e famosos gostavam da garantia que ele dava de que nada negativo seria vendido de sua agncia. 
Eles chegavam a alertar a equipe de Ric sobre oportunidades de fotografias, felizes em fornecer as demandas da mdia, desde que as fotos fossem publicidade positiva. 
E as revistas se fartavam do que ele podia fornecer, pagando muitos dlares pelas exclusivas.
Todos ficavam contentes.
A frmula mgica do sucesso.
Classe...
Era a senha para o paraso, pelo menos em termos de riqueza e aceitao na alta sociedade. Instintivamente, sabia disso aos 16 anos, mas se esqueceu quando tinha 
vinte e poucos e foi em busca de outras conquistas. Contudo, reaprendeu a tempo de construir o que virar um negcio multimilionrio.
Kathryn baixou mais uma foto tirada no aeroporto - mais estrelas de Hollywood de partida, pensou Ric, observando preguiosamente, quando um dos rostos chamou sua 
ateno.
Lara?
A cabea dela estava abaixada. Usava culos de sol. Aquela cor ao lado de sua bochecha seria parte de um olho roxo? Sua boca estava inchada, como se tivesse apanhado.
Ele desviou o olhar para o homem que a acompanhava. Era Gary Chappel, o rapaz com o qual se casou, herdeiro e atual CEO do imprio Nursing Home, construdo pelo 
pai. Nasceu em bero de ouro e era do tipo bonito, com bons antecedentes que poderiam t-lo tornado um modelo de sucesso, se ele quisesse.
Mas ele no parecia to atraente nesta foto: a boca estava cerrada em uma linha implacvel, os olhos ocultos emanavam uma perversa ameaa. Uma de suas mos apertava 
com fora os ombros de Lara. A outra agarrava o brao, que estava preso entre eles dois.
- Uau! Isso  munio para as pginas de fofoca - observou Kathryn.
Gary e Lara Chappel, definitivamente um casal no topo da alta sociedade australiana, geralmente fotografado como duas pessoas lindas. Ric j vira vrias fotos deles 
antes, mas jamais dessa forma. 
- Apago? - perguntou Kathryn.
- No! - ele deixou escapar. Kathryn olhou para ele, surpresa.
- No  uma foto feliz, Ric.
- Imprima para mim e compre os direitos autorais.
- Mas...
- Se no comprarmos, algum comprar. Como voc disse,  munio para pginas de fofoca, e no quero que seja publicada - ele falou com seu estilo inflexvel, forte 
demais para ser ignorado.
- No faz parte do nosso negcio proteg-los, Ric - lembrou Kathryn, tentando entender a razo.
Ele a treinara para lidar com todo o negcio do escritrio de Sidnei. Ela gerenciava quando ele estava fora. Confiava nela. Mas aquilo era pessoal. Profundamente 
pessoal. E no podia deixar passar.
Estranho no ter tido contato com Lara Seymour em todos esses anos, desde que fora para Gundamurra... mas o fato de v-la como se tivesse sido vtima de violncia 
fsica pelo marido afetou Ric.
E ali estava Kathryn, olhando para ele e perguntando se perdera o bom senso. Olhos verdes, cabelos avermelhados cortados em um estilo chique, rosto lindo, sempre 
bem arrumada em seu terninho, tudo em um pacote atraente que ainda tinha um crebro que invariavelmente demonstrava uma inteligncia sagaz. Gostava dela, desejava 
que fosse feliz no casamento que estava planejando com o namorado, um negociador astuto de um banco.
Na realidade, ele gostava muito de Kathryn e no tinha certeza se seu noivo era bom o bastante para ela. Mas jamais desejou Kathryn, no como queria Lara Seymour.
Para ele, Lara representava a perfeio da feminilidade: esbelta, proporcional, com maravilhosos cabelos louros esvoaantes e brilhantes, um rosto de traos de delicada 
distino, olhos do azul mais intenso, um sorriso lindo que era ao mesmo tempo tmido e convidativo, uma pele macia e perfeita que brilhava com uma luz que ele ansiava 
por tocar, por afagar. E andava como uma bailarina, muito graciosa.
Ele se concentrava com prazer em todos os detalhes dela, apesar de ela tambm apresentar o mistrio do inatingvel, forando-o a... mas isso foi h muito tempo.
- Lara e eu nos conhecemos h muito tempo, Kathryn - ele falou, calmamente. - Ela detestaria ver isso exposto.
- Voc... e Lara Chappel? - Kathryn estava atnita.
- Lara Seymour...
- Lara foi a razo... - Ela sentiu as faces corarem de constrangimento e rapidamente voltou o olhar para o computador. - Vou imprimir - murmurou.
- Razo de qu? - Ric insistiu, curioso. Ela olhou de relance.
- No  da minha conta, Ric.
- Mas fale mesmo assim.
- As pessoas falam de voc. Vamos encarar... voc  um dos solteiros mais cobiados do mundo. Podia ter um monte de mulheres, mas...
- Mas?
Ela finalmente olhou diretamente para ele.
- Nunca pareceu ter relacionamentos srios. Ele sorriu.
- Tenho uma vida ocupada, Kathryn.
- Claro. - Ela balanou a cabea e tratou de imprimir a fotografia.
Ric ponderou o que ela falou.
Sim, seria fcil namorar mulheres que achava atraentes. De alguma forma, a atrao no durava muito. Sempre terminava achando tudo falso, consciente de que as mulheres 
se interessavam pelo que ele podia fornecer. Elas no o conheciam. S queriam a parte dele que emanava o poder do grande sucesso e de muito dinheiro.
Certamente fizera de sua ambio a coisa mais importante. O mundo era mais ou menos sua ostra. Tinha apartamentos em Londres, Nova York e Sidnei, com uma divina 
vista do porto. Tambm tinha carres em cada cidade: um Jaguar em Londres, um Lambourghine em Nova York, uma Ferrari aqui.
Ele lembrou rapidamente do Porsche que roubara para impressionar Lara. Podia comprar um. Mas no quis. Por que se lembrar de uma frustrao, de uma derrota? Apesar 
de ele no ser mais aquele menino... ser?
Ser que algum realmente foge do passado?
Ele olhou para a fotografia que Kathryn imprimiu, sentindo-se levar para um tempo em que ficar com Lara Seymour parecia mais importante do que qualquer outra coisa. 
De alguma forma, ela tinha sido o preenchimento de tudo o que ele sonhara.
- Tem um envelope? - ele perguntou, sabendo que tomaria uma atitude.
Kathryn pegou um envelope no armrio e entregou a ele.
- Imprima mais cinco cpias... - Seus instintos insistiam em precauo. - Coloque-as no cofre. E depois apague.
Ela franziu a testa diante das ordens no usuais.
- Quanto devo pagar pelos direitos autorais?
- No me interessa. - Ric colocou as fotos dentro do envelope e o lacrou. - Negocie o melhor preo que conseguir. - Ele se encaminhou para a porta com determinao. 
- O importante  que pago o quanto for preciso. Faa isso.
- Certo!- ela respondeu, aceitando a tarefa sem fazer mais perguntas, apesar de estar visivelmente confusa.
Ric no se importava. Se aquilo fosse uma indulgncia consigo mesmo, poderia pagar. Mas parecia que Lara passava por uma situao ruim com Gary Chappel. A foto foi 
tirada no aeroporto. Ser que ela estava tentando fugir do marido?
Abuso domstico pode ocorrer em qualquer local, e com freqncia  escondido, por vergonha e medo. Sua prpria me fora vtima de abuso, morrendo de ruptura nos 
rins. Ric, criana ainda, tentou proteg-la e foi agredido. Pelo menos, seu pai foi preso por isso, mas Ric nunca esqueceu o medo de testemunhar contra ele no tribunal.
Se Lara estivesse vivendo este tipo de medo...
No era da conta dele. No tinha o direito de se meter. Entretanto, no podia ignorar o fato. Seu corao queimava ante a necessidade de agir. E sentia uma enorme 
e desenfreada exultao em ter poder para isso: o poder de fazer o que quisesse.
No era mais um menino de rua.
Era um rapaz rico.
E tinha classe.
E dinheiro para torrar da forma que quisesse.
Quanto a isso, podia mais do que se igualar a Gary Chappel.
Estava satisfeito por ter vestido seu terno Armani naquela manh, escolhido mais porque ia encontrar Mitch Tyler na hora do almoo, na cidade, do que para trabalhar 
propriamente. Advogados sempre usavam terno, e Mitch era um advogado de primeira. Ele fez o que teve vontade de fazer. Johnny Ellis tambm obteve sucesso com vrias 
de suas msicas country. Mesmo depois de todos aqueles anos desde que voltaram de Gundamurra, os trs ainda se comunicavam quando estavam no mesmo local.
Nenhum dos trs se casou.
Enquanto Ric entrava em sua Ferrari, imaginava se Mitch e Johnny tinham o mesmo problema com as mulheres que namoravam, sem capacidade de envolvimento depois de 
um certo tempo. Os trs provavelmente compreendiam um ao outro mais do que qualquer mulher poderia. Na realidade, talvez precisasse de Mitch para derrotar Gary Chappel, 
se essa fosse a vontade de Lara.
Dirigiu do estacionamento do escritrio, em Circular Quay, at o subrbio. O envelope contendo a fotografia estava no banco ao seu lado; uma arma importante em uma 
guerra que poderia travar, se Lara quisesse ser libertada.
Ric sabia onde ela morava. No que a estivesse seguindo. Houve muita publicidade quando Gary Chappel comprou a manso de 15 milhes de dlares na orla do porto em 
Vaucluse, com fotos de Lara mostrando as reformas que fizeram.
A dona de casa perfeita para a posio que tinha, pensou Ric na ocasio. No imaginou nem por um momento que a vida particular de Lara pudesse ser pssima. Ela parecia 
ter sido abenoada... e ainda inatingvel. No havia por que armar um encontro com ela. Que o passado ficasse para trs, ele dizia a si mesmo. Nada de bom aconteceria... 
s mais frustrao e derrotas.
Ento, por que estava abrindo uma exceo agora?
Porque a imagem que sempre tivera da vida encantadora de Lara estava mudando.
O que pretendia conseguir se intrometendo? Quem pensava que fosse? Um super-heri?
Bem, podia parecer piada, mas Ric sabia que no conseguiria descansar at descobrir a verdade por trs daquela fotografia.
Foi para Vaucluse movido por sua determinao. E foi a determinao que fez com que tocasse a campainha da porta da manso e que agentasse a espera diante da porta, 
que no foi aberta por Lara, mas por uma mulher de meia-idade. Os cabelos grisalhos com permanente e o vestido do uniforme de botes azul-royal fizeram com que Ric 
imediatamente a associasse a um membro da equipe de empregados. Provavelmente a governanta.
- Meu nome  Ric Donato. Vim visitar a Sra. Chappel - ele declarou, ainda mais determinado.
- Desculpe, Sr. Donato, mas a Sra. Chappel no est recebendo visitas hoje - ela falou, revelando que Lara estava em casa.
- Ela me ver - ele respondeu sorrindo, com o envelope na mo. - Por favor, entregue este envelope para a Sra. Chappel e diga que Ric Donato veio discutir o contedo 
com ela. Esperarei a resposta.
- Est certo, senhor.
Ela pegou o envelope e fechou a porta.
Ele aguardou.
De uma certa forma, era chantagem. Lara saberia que aquela no era a nica cpia da fotografia. Poderia ter medo da forma como seria usada. Esse medo abriria as 
portas para ele. E ento entraria em sua vida novamente.
Por quanto tempo, ele no sabia.
Pensava nisso como... algo de que no podia fugir.


CAPTULO 2

Lara estava sentada na cadeira de balano do quarto de beb, enquanto pensava que nada faria com que sasse daquela depresso de viver presa com Gary. Tinha que 
fugir. Precisava. Mas como?
Olhava para o bero vazio, a cmoda vazia e todo o resto da moblia que comprara para o beb que no teve. Natimorto. Desejava ter morrido com ele. A ltima escapatria. 
Provavelmente, a nica. Gary a vigiava muito para deix-la fugir. Tinha olheiros em todos os locais.
Alm disso, tinha que fugir antes que ele a engravidasse novamente. Desejava desesperadamente que isso no tivesse acontecido na noite anterior. Seria insuportvel. 
Conseguiu comprar uma caixa de plulas anticoncepcionais na farmcia em King Cross, mentindo ao dizer que deixara a receita em casa e prometendo lev-la no dia seguinte. 
Mas estava tomando h apenas duas semanas e no sabia se funcionariam.
Uma criana a prenderia naquele casamento para sempre. Seria impossvel escapar. Gary colocaria a justia atrs dela, obtendo a custdia. Sentia-se mal s de pensar 
em deixar uma criana com ele. Isso no poderia acontecer.
Marian Keith surgiu na porta com um grande envelope branco na mo. Foi Gary quem a contratou, e ela era muito grata pelo salrio que recebia. Todos os funcionrios 
eram contratados por Gary, e se reportavam a ele. No entanto, algumas vezes Lara sentia o olhar de simpatia e preocupao da governanta. Mais de uma vez, Marian 
Keith viu o que acontecia na casa. No que tivesse presenciado muito. Gary era cuidadoso para manter sua tirania em privacidade.
- Com licena, Sra. Chappel, h um rapaz na porta...
- Voc sabe que no posso receber visitas hoje, Sra. Keith - ela falou, balanando na cadeira, com o olhar fixo nos motivos de Walt Disney colados na parede. Branca 
de Neve. Fez uma careta. Certamente comera uma ma envenenada ao se casar com Gary Chappel. E no havia ningum para salv-la. Ningum.
- Ele insistiu muito. Um senhor Ric Donato... Foi um choque no corao de Lara.
- Quem? - perguntou, sem aceitar o que ouviu.
- Ele disse que seu nome era Ric Donato. Inacreditvel, depois de tantos anos! Ela voltou ao passado. Quantas vezes o procurou, desejando estar com ele novamente, 
sem se importar quem era ou o que tinha feito. Ric Donato. Ricardo...
Um sonho perdido.
Um sonho que enterrou com o passar dos anos sem sinal dele, sem contato. Agora era tarde. Impossvel deixar que a visse daquele jeito.
- Ele me pediu para lhe entregar isso. - Marian Keith entrou no quarto e mostrou o envelope para Lara. - Est esperando na porta. Disse que a senhora gostaria de 
conversar sobre o contedo com ele, Sra. Chappel.
Lara balanou a cabea, mas pegou o envelope e o abriu, curiosa para ver o que tinha dentro. Mal retirou o papel e se viu novamente chocada diante do que tinha l 
dentro.
Instintivamente, colocou a foto novamente no envelope para escond-la. Por alguns minutos, ficou paralisada de pavor com as conseqncias da publicao daquela fotografia.
- O que devo dizer a ele, Sra. Chappel?
Ele... Ric Donato esperando... preparado para discutir sobre o contedo do envelope.
Ela no tinha alternativa.
Era permitir que ele entrasse ou...
O corao palpitou. O peito estava apertado. Respirou fundo e tomou a nica deciso que poderia salv-la da fria de Gary.
- Leve o Sr. Donato ao ptio. Eu o encontrarei l. Hesitao. Preocupao.
- Tem certeza, Sra. Chappel?
Gary descobriria que ela recebeu visita. No tinha como fugir disso. Teria que confessar a razo. Deus! No tinha como escapar. Mas era melhor evitar que aquilo 
fosse a pblico e ser punida por ter causado a cena que foi capturada por algum fotgrafo.
- Tenho certeza, Sra. Keith - ela falou, mais confiante do que realmente estava.
- Est bem. - Ela balanou a cabea em aquiescncia e se retirou.
Lara no conseguia se mexer. O envelope que segurava parecia dinamite acesa, e nada impediria que explodisse estrondosamente. Mesmo que fosse capaz de impedir a 
publicao da foto, Gary detestaria que algum soubesse daquilo, e Ric Donato sabia. Esquivou-se de enfrentar o reconhecimento nos olhos dele - olhos escuros como 
veludo marrom, que um dia a acariciou, fazendo com que se sentisse...
Estremeceu, imediatamente tentando afastar tais pensamentos da memria. Tinha apenas 15 anos, e Ric, 16. Tinha sido uma fixao totalmente romntica... um sonho 
louco... Romeu e Julieta... que terminou porque jamais teria chance de sobreviver no mundo real.
E Lara pensou que tudo aquilo era uma questo de sobrevivncia.
Levantou-se, conscientizando-se de que o encontro com Ric Donato era inevitvel. Correu at o banheiro para verificar a aparncia. A maquiagem quase escondia o descoloramento 
ao redor dos olhos. O batom passado cuidadosamente minimizava o inchao de seus lbios. Os cabelos louros compridos, como sempre, estavam macios, caindo brilhantes 
sobre os ombros. Mesmo em casa, Gary exigia que ela mantivesse a aparncia impecvel.
Vestia cala jeans clara e camisa de manga comprida listrada de marrom e branco. O punho escondia o machucado no pulso. Nada era mostrado, exceto... ela colocou 
culos escuros, perfeitamente razovel para um encontro no ptio, considerando o reflexo que vinha da piscina.
Provavelmente, aquilo era um orgulho estpido, debochou de si mesma. Ric Donato no seria enganado. No veio para ser iludido, mas ento por que veio...? Lara respirou 
fundo em uma tentativa desesperada de acalmar sua agitao interior. Tinha que encar-lo, independentemente da motivao que o levara ali.
Ela levou o envelope com a fotografia para o ptio, tentando conter o medo que causava dor em seu estmago. Eleja estava l, olhando para as guas do Porto de Sidney.
Ficou surpresa de v-lo vestindo terno. O corte e o modelo faziam com que ela se lembrasse de quem Ric Donato era agora: um homem que podia comprar quantos ternos 
de grife quisesse, um homem com poder de transmitir segredos para um mundo vido por fofocas. Ao longo dos anos, leu alguns artigos sobre ele; de reprter fotogrfico 
premiado a dono de uma rede de agncias de fotografia em todo o mundo.
Mas se pegou olhando para os cabelos encaracolados negros que ele ainda usava longos o bastante para cair sobre o colarinho, lembrando um Ric Donato bem mais jovem; 
lembrando de seus dedos emaranhado nesses cachos...
Um beijo.
Foi tudo o que houve entre eles.
Apenas um beijo...
Ele se virou abruptamente, como se de repente sentisse sua presena. Ela no podia fit-lo nos olhos, olhos que deviam saber onde ela estava no momento. Sentiu-se 
envergonhada, totalmente oprimida. Como sua vida se transformara em uma priso de medo? Era como um caminho sem volta.
- Ol, Lara.
A voz macia e suave fez com que a pulsao dela acelerasse. E ainda assim no conseguia encar-lo. Olhou para a boca de Ric: um lbio inferior carnudo e um lbio 
superior enfaticamente curvado. Sexy e sensual. Um contraste marcante ao queixo pronunciado e ao nariz romano, muito masculino.
Ela se lembrou de como ele a beijou... lentamente, e de forma to sedutora, cortejando sua alma romntica na poca. Se ao menos pudesse voltar ao passado, fazer 
escolhas diferentes, seguir caminhos diferentes...
- Ric... - ela se forou a falar o nome dele. Ele apontou para o envelope em sua mo.
- Foi tirada no aeroporto e enviada para minha agncia de Sidnei hoje de manh.  venda para quem se interessar em comprar.
- Voc ainda no vendeu? - ela se entregou, corando e incapaz de conter o pnico.
- No. E no venderei, Lara - ele garantiu. - Na realidade, acabei de ligar para minha assistente, que me falou que estamos com os direitos autorais.
- Pago o que for preciso.
Ele balanou a cabea.
- Isso  irrelevante. Lara gesticulou, incrdula.
- No entendo. Por que voc veio se no para...
- Fazer um bom investimento? - A boca dele se curvou em um sorriso irnico. - Estranhamente, vim por sua causa.
- Por mim? - Ela quase gritou. Sentia-se quase engasgada por uma emoo catica. Ela o encarou. O que os olhos dele demonstravam? Brilhavam com um objetivo indefinvel, 
certamente ligado a ela, fazendo com que se sentisse estranhamente tmida.
- Tire os culos, Lara. Voc no precisa esconder de mim.
- No estou... - Ela interrompeu a mentira, mas mostrar o rosto... seria muita humilhao. - Deixe-me manter o mnimo de orgulho, Ric.
- No se trata de orgulho. Trata-se de verdade. Somente entre ns dois - ele declarou calmamente, transmitindo-lhe a confiana de que ela tanto precisava.
Alm disso, ele tinha aquela foto. Que deixou de publicar. Isso no provava que estava mantendo a situao encoberta?
Com um ligeiro suspiro derrotado de resignao, retirou os culos, revelando o machucado que reduzia um de seus olhos a uma fenda estreita e roxa.
- Verdade nua e crua - ela falou, lutando para conter as lgrimas.
Ele balanou a cabea.
- Nunca contei que minha me era uma esposa violentada.
Lara se esquivou diante do rtulo de violentada.
- Ela morreu em decorrncia das agresses cometidas pelo meu pai quando eu tinha oito anos - ele continuou, persistindo sobre o que poderia ocorrer. - No consegui 
salv-la em nenhuma das vezes que tentei interferir para conter a violncia dele.
- Sinto muito... - Ela balanou a cabea, engolindo em seco para segurar as lgrimas. - No, voc nunca me contou - ela respondeu, tentando desesperada-mente manter 
alguma dignidade.
- Mas posso salvar voc, Lara. Se quiser.
- Oh, Deus! - No conseguia mais se controlar. Caminhou at a cadeira mais prxima, desabou nela e escondeu o rosto com as mos, apoiando os cotovelos na mesa, enquanto 
chorava diante da impossibilidade de ser salva de um marido que no a deixaria partir.
Estava consciente de que Ric Donato a estava observando, esperando. Pelo menos no tentou toc-la ou falar palavras confortantes, o que teria sido insuportvel. 
Ele ficou do outro lado da mesa, parado feito uma esttua, mudo, sem fazer nada, apenas dando a ela o tempo necessrio para se recompor. O que aconteceu eventualmente, 
quando ela no tinha mais nenhum orgulho. Mas como Ric falou, no era uma questo de orgulho.
- Obrigada. Mas voc no pode fazer nada. - Ela levantou a cabea, deixando que ele visse a verdade em seus olhos. - Exceto o que j fez... com a fotografia. Fico 
muito agradecida... por ter impedido a publicao, Ric.
Ele ainda tinha aquele olhar sombrio.
- No aeroporto... voc estava fugindo dele?
- No consegui - ela admitiu. - Todos aqui... se reportam a ele. No posso ir a lugar algum... sem que ele saiba.
- No tem apoio da famlia, Lara? - ele perguntou, preocupado diante de sua falta de ajuda.
- Meu pai enfartou. - Os olhos dela refletiam a ironia da situao. - Est em uma das clnicas de Chappel. Minha me no quer ouvir nada contra Gary.  muito... 
ameaador...
Ela no continuou. Ric sabia que era filha nica. No tinha irmos a quem recorrer. E era Gary quem escolhia seus amigos. Ela perdeu contato com as amigas que tinha 
na poca em que era modelo.
- Mas voc quer deix-lo - ele pressionou.
- Oh, sim. - Ela lanou um olhar irnico para ele. - No sou masoquista, Ric.
- Ser, Lara? - ele desafiou. - At onde voc iria para tirar Gary Chappel da sua vida?
Ela balanou a cabea, na defensiva.
- Isso no  possvel.
- Sim,  - ele falou com uma confiana to arrogante que fez com que ela retrucasse com enorme frustrao.
- Voc acha que no testei o que posso e no posso fazer?
- Voc passaria um ano em um rancho de criao de ovelhas no deserto, longe de tudo o que conhece?
O deserto? Ela jamais pensou nisso como uma rota de fuga. Nunca esteve l. No conhecia ningum. No tinha idia de como as pessoas viviam l. Mas elas viviam. E 
ela se livraria do medo, o medo que conhecia to intimamente.
- Sim - ela falou, se opondo a qualquer outro julgamento que ele pudesse fazer sobre a vida rica e privilegiada que sempre vivera. O desespero pedia medidas desesperadas.
- Est preparada para sair comigo agora? Sem bagagem. S voc, vindo comigo e deixando tudo isso para trs...
- Com... voc?
Ficou confusa com essa surpresa. Ric Donato no estava sendo terico. Estava realmente perguntando a ela... e ela no conhecia o homem que era no momento. Como podia 
concordar com uma ao drstica quando sua nica experincia pessoal com ele era uma lembrana romntica da adolescncia? Isso foi... h dezoito anos!
- Sou seu porto seguro, Lara - ele falou, sem hesitar. - Posso deix-la em Gundamurra, onde voc ficar protegida de qualquer possvel perseguio de seu marido. 
Voc ter um refgio seguro durante o tempo que leva o divrcio.
Gundamurra... parecia o fim do mundo... primitivo...
- Seria melhor voc decidir rapidamente - ele aconselhou. - Se o que voc diz  verdade e todos se reportam ao seu marido, ele j pode estar ciente da minha visita 
e suspeitar dela.
- Como posso confiar que voc far o que est afirmando? - ela perguntou, paralisada diante do medo das conseqncias de tomar aquela deciso.
- Estou aqui, oferecendo. O que voc tem a perder se confiar em mim?
- Se voc falhar, ser muito pior.
- No falharei.
- Gary disse que haveria um homem me vigiando, vigiando a casa, os meus passos.
- Meu carro est estacionado na frente da sua casa. Tenho os recursos necessrios para fugir de qualquer um que nos siga.
Ele falava calmamente, com uma segurana to indo-lente que acalmava o pnico que tomava conta dela. No lugar do medo, surgiu uma grande esperana. Ele podia fazer 
isso? Ser? Lev-la para um lugar seguro em que Gary no pudesse encontr-la?
Um rancho de criao de ovelhas no deserto.
Por que no?
Devia ser mais civilizado do que viver assim.
- E a sua chance, Lara. Ser uma vida diferente, mas pelo menos voc ficar mais tranqila.
Ela respirou fundo.
- Esse Gundamurra... pertence a voc?
- No. Mas morei l. E voc seria bem-vinda.  um bom lugar para espairecer... se voc quiser.
Ela s conseguia pensar em liberdade, mas liberdade tambm tinha um preo.
- Se fizermos isso... e conseguirmos chegar l... Vou ficar devendo um grande favor a voc, Ric.
Ele sorriu levemente.
- No se trata de dinheiro.
Dinheiro? Ela sequer pensou em dinheiro. Olhando para o homem que ele se tornou, poderoso o bastante para desafiar Gary, imaginava o que ele queria dela.
Estaria ajudando somente por compaixo pela situao? E se ele fosse como Gary, que no se importava com as suas aspiraes? No, no podia ser assim, ou no teria 
falado da me. Estava deixando o medo tomar conta de seus instintos.
- Voc poder me pagar o que acha que me deve depois de se divorciar - ele falou, quebrando o silncio.
- Como vou providenciar o divrcio se estarei...?
- Conheo a pessoa que pode fazer isso. No se preocupe, Lara. Mitch vai encostar Gary Chappel na parede de forma que ele no poder tentar se reaproximar.
Ela balanou a cabea, incrdula. Tudo estava acontecendo to rpido, queria se agarrar a todas aquelas promessas.
- Tem certeza?
- Absoluta. - Os olhos escuros dele brilharam com mais determinao ainda quando se aproximou e pegou o envelope que ela deixou sobre a mesa. - Esta foto ser usada 
para obtermos uma compensao justa pelo que voc sofreu nas mos de Gary Chappel.
Ela olhou para ele e notou a mesma fora incontrolvel que notava no Ric Donato adolescente. Mas ele foi controlado... pela polcia, por causa do roubo do carro.
Agora no havia necessidade de roubar. Ele tinha dinheiro e poder para manter-se incontrolvel em qualquer projeto a que se dedicasse. Ao reconhecer isso, Lara se 
encheu de esperana. Certa ou erradamente, confiou nele. Independentemente dos riscos, valia a pena aceitar a proposta. Pelo menos devia tentar.
Ela afastou a cadeira e se levantou, sentindo adrenalina em todo o corpo.
- Eu vou, estou pronta. Deciso tomada.
Ele balanou a cabea, aprovando a atitude dela.
- No precisa trazer nada alm de uma bolsa comum, Lara. Com carteira de motorista e tudo o que voc levaria normalmente para sair, certo?
Ela estava totalmente ciente da preciso da instruo: nada que sugerisse uma partida.
- Levarei apenas alguns minutos, Ric. Voc me espera aqui?
- Sim. Pode colocar os culos escuros novamente. Ela o fez e se flagrou sorrindo para ele, de cabea erguida diante da promessa de ser livre.
- Obrigada, Ric. Ele retribuiu o sorriso.
- Sempre quis ser um cavaleiro a salvar uma donzela em perigo.  muito bom poder ajud-la, Lara.  o bastante para mim.
Era a reafirmao de que ela estava a salvo com ele.
Ele no queria nada em troca.
Talvez contos de fada pudessem se tornar realidade, pensou Lara, correndo para pegar a bolsa.
Se Ric pudesse salv-la de Gary, ele seria um verdadeiro prncipe.


CAPITULO 3

Os minutos corriam e cada segundo parecia crucial para Ric. Ele caminhava pelo ptio, desejando que Lara no tivesse mudado de idia ou entrado em pnico diante 
da deciso. Ele olhava para o relgio. Tempo era fundamental. Se algum tivesse contado a Gary Chappel sobre sua visita... se ele viesse para casa... um confronto 
antes da partida deles podia arruinar tudo.
Barulho de passos...
Ele se movimentou para ir ao encontro dos passos, com todo o corpo tomado de tenso.
Lara... trazendo uma bolsa e um chapu.
- Estou pronta - ela declarou, com determinao na voz e uma certa empolgao.
- Vamos - ele falou, sem notar nenhuma hesitao em Lara, para seu alvio.
A governanta estava no saguo. Olhou ansiosamente para os dois.
- Sra. Chappel...?
- Vou sair um minuto - respondeu Lara, se dirigindo  porta. - No vamos demorar, Sra. Keith.
A governanta a acompanhou at a porta.
- Sra. Chappel. - Era um pedido para Lara reconsiderar.
Sabia o que estava acontecendo ali, pensou Ric, que no gostou do que viu. Ele apoiou a mo em um dos ombros da governanta, fitando-a.
- No se preocupe. Cuidarei dela.
Ela balanou a cabea ligeiramente e se afastou, deixando que os dois sassem, sem protestar.
- Este carro chama ateno, Ric - exclamou Lara com medo.
- No ficaremos nele por muito tempo - ele garantiu.
Era bom estar atrs do volante e ligar o carro. Tinha Lara sob sua custdia agora, e nada o impediria de pegar um avio para Gundamurra. A tentao de correr em 
alta velocidade era grande, mas o mais inteligente seria dirigir normalmente.
Mal ele saiu da manso dos Chappel, e um carro cinza, modelo sedan, que estava estacionado no acostamento, comeou a segui-lo, ficando na cola da Ferrari. O motorista 
que o dirigia que usava culos escuros e um bon.
Ric no tinha inteno de enfrent-lo. Era melhor fazer isso quando menos esperasse. No primeiro sinal fechado, usou o telefone do carro para entrar em contato com 
o escritrio da Circular Quay. Kathryn no demorou a atender. Falou com ela enquanto dirigia.
- Kathryn, estou indo para o escritrio. Lara Chappel est comigo e preciso de sua ajuda. Limpe sua mesa para as prximas duas horas, pegue sua bolsa e as chaves 
de seu carro e me espere no estacionamento do subsolo. Chegaremos em dez minutos. Certo?
- Estarei esperando, Ric.
- Fale para a secretria que voc vai ter uma reunio de negcios com o editor de uma revista e s volta  tarde.
- Certo.
- Obrigada.
- Quem  Kathryn? - perguntou Lara na mesma hora, claramente apreensiva por outra pessoa saber o que eles fariam.
- Kathryn Ledger. Minha assistente executiva no escritrio de Sidnei. Confio nela cegamente.
- Foi ela que comprou a foto?
- Sim.
Lara respirou fundo.
- Presumo que vamos ter que trocar de carros.
-  preciso. No vire para olhar, mas estamos sendo seguidos por um cara num carro cinza.
Ela apertou as mos no banco.
Ric imaginou quantas vezes ela foi impedida de fugir. E foi punida. Irrelevante, disse a si mesmo. Aquilo era passado. Tinha que assegurar o futuro de Lara.
No prximo sinal vermelho, ligaria para o aeroporto de Bankstown para entrar em contato com o responsvel pelo avio de Johnny.
- Aqui  Ric Donato. Vou pegar o avio de Johnny para ir para Bourke. Por favor, envie-o para a pista com um plano de vo o quanto antes. Devo chegar em uma hora.
- Farei o possvel, Sr. Donato. Deseja bebidas a bordo?
- Sim, para duas pessoas.
- Sem problemas.
Ouviu Lara respirar fundo novamente.
- Um avio particular? - perguntou. Ele balanou a cabea.
- Pertence a um amigo meu. Tenho autorizao para usar sempre que precisar. Johnny est nos Estados Unidos, e no precisar dele.
- Voc sabe pilotar? - a voz dela parecia surpresa. Ele sorriu.
- No se preocupe. Tenho licena para pilotar e tenho milhares de horas de vo.
- Bourke...?
- Primeira parada. Vamos comprar algumas roupas para voc antes de irmos.
- No trouxe muito dinheiro. Mas tenho os cartes de crdito. Se Gary no...
- No. Nada de cartes de crdito. Voc pode ser rastreada quando us-los. Eu tenho dinheiro. Considere um emprstimo.
Ela no se ops.
Ric estava contente por ela ter presena de esprito e no encrencar com o plano que ele ainda arquitetava.
Aquilo tudo fazia com que se lembrasse dos anos em que ao e planejamento rpidos eram cruciais para sobreviver. Naquela poca, muita adrenalina corria em seu sangue. 
Agora era uma batalha diferente, mas no deixava de ser uma batalha. A vida de Lara corria perigo.
Quanto a isso no havia dvidas. E a evidncia do rapaz os seguindo selou a verdade do que Lara contara a ele. A manso Vaucluse era uma priso, e Gary Chappel merecia 
perder a esposa.
Somente o tempo diria se o mal que o desgraado fez a Lara era irreparvel. Ric tinha a inteno de dar esse tempo a ela. Estranho, depois de todos esses anos ele 
ainda se sentia fortemente ligado a ela. Seu primeiro amor. Seu nico amor, se  que se podia considerar assim. Mais uma fantasia, dizia a si mesmo, e Gary Chappel 
se encaixou de certa forma na fantasia. S que a verdade sobre o casamento deles era muito diferente do que ele imaginava, e Ric sentia uma enorme fria contra o 
homem que deixou Lara to arrasada.
Olhou para as mos dela e viu que ela retirou os anis. Um ato de bravura, considerando que estava amedrontada. E tambm uma enorme prova de que ela confiava no 
que ele prometia. Isso demonstrava que ela tambm se sentia emocionalmente ligada a ele. Talvez uma ressaca do passado, lembrando a relao inocente que tiveram.
No importa... ela veio com ele e Ric no trairia sua confiana. Primeiramente, e mais importante, ela tinha que ficar a salvo. Depois, ela deveria pedir o divrcio. 
E isso o fez lembrar do encontro na hora do almoo.
Ele ligou para o escritrio de Mitch e deixou um recado cancelando o almoo e dizendo que ligaria para ele  noite.
- Este  o advogado de quem falei - ele explicou para Lara. - Mitch saber como conduzir seu divrcio.
- Um advogado... - ela olhou curiosamente para ele. - Seus amigos podem ser muito teis, Ric.
Tinha muitos amigos, mas s podia contar com alguns deles em uma situao como aquela.
- Johnny e Mitch estiveram comigo em Gundamurra - ele falou. - E o dono do rancho, Patrick Maguire, foi como um pai para ns em um momento importante de nossas vidas. 
Todos estes homens fariam tudo o que pudessem para proteg-la, Lara.
- Atendendo a um pedido seu? Ele balanou a cabea.
- Porque no gostam que as pessoas sejam feridas, e nenhum deles se intimidaria pelo que seu marido  capaz de fazer.
Ela suspirou.
- Esse  um pedido e tanto. Ele sorriu para ela.
- Todos eles so homens de verdade. Ela sorriu.
- Voc tambm . - E depois se preocupou. - No quero que Gary o arrune, Ric. Ele faz as coisas  maneira dele. Haver... repercusses... por voc me ajudar.
Era impressionante que estivesse preocupada com Gary e seus amigos quando sua prpria vida estava em jogo.
- H momentos em que certas coisas devem ser interrompidas, Lara - ele falou, calmamente. - E seramos pessoas mesquinhas se no o fizssemos.
Havia tantas injustias no mundo. Por anos, ele as demonstrou com sua cmera, mas as fotos que tirou no fizeram tanta diferena. Elas eram simplesmente um registro 
do quanto o homem podia ser desumano com seus semelhantes. Talvez aquilo o impulsionasse no momento: a necessidade de fazer a diferena, ainda que fosse somente 
com relao  vida de Lara.
Ele dirigiu at o estacionamento e usou o carto para entrar.
- O segurana de Gary no pode nos seguir aqui de carro. Temos tempo de fazer a troca. Teremos que nos abaixar no carro de Kathryn para que ele no nos veja saindo. 
Tudo bem?
- Sim.
A fuga ocorreu normalmente. No houve obstculos. No meio da tarde eles estavam em Bourke. Ric abriu uma conta em um banco local, colocou Lara como dependente, depositou 
alguns milhares de dlares, deu dinheiro a ela e a mandou fazer compras. Tambm deu as chaves do carro que alugou no aeroporto.
- Do que precisarei, Ric? - ela perguntou, ansiosamente. - Este  um territrio totalmente novo para mim. Quero estar de acordo.
Uma boa e positiva atitude.
Ric estava contente por ela ter aceitado o desafio de passar um ano no deserto, demonstrando que no era a rica e mimada que brigava contra a vida. Ele imaginava 
como ela lidaria com o isolamento, se gostaria ou detestaria. Somente o tempo diria.
- Shorts, calas jeans, sapatos confortveis, sandlias - ele falou. - Voc precisar de um casaco. E de alguns suteres. Pode esfriar  noite. Compre coisas casuais. 
Nada muito clssico. Olhe ao redor. Veja o que as pessoas vestem.
No que ela fosse ver qualquer pessoa nos prximos meses. Era fim de fevereiro, estao das chuvas, e a estrada para Gundamurra estaria intransitvel. A nica forma 
de chegar seria de avio. Mesmo que Gary Chappel descobrisse seu paradeiro, seria impossvel chegar at ela. Patrick Maguire ficaria atento a isso.
- Voc deve correr, Lara - ele advertiu. - Temos que sair daqui cerca de cinco horas para podermos aterrissar em Gundamurra antes do pr-do-sol.
- Serei rpida - ela prometeu, sorrindo. - Ningum vai se importar com a minha aparncia, vai?
Foi sua primeira expresso de despreocupao. Ric sentiu o prprio corao se encher de prazer.
- Ningum ligar. No deserto, voc no  julgado por suas roupas.  a pessoa que conta, Lara.
- A pessoa... - Ela sorriu. - Eu perdi a menina que voc conheceu, Ric.
Ele balanou a cabea. Impossvel voltar. Os dois cresceram, no eram mais aqueles dois adolescentes.
- Esta  a chance de descobrir quem voc  agora- ele falou. - Encontro voc no carro s cinco.
Observou-a caminhando pela rua e viu que ela aproveitava o primeiro gosto da liberdade. Era bom v-la sem medo, ver a diferena. Era uma recompensa e tanto para 
o que fizera.
A prxima etapa seria avisar Patrick sobre a chegada deles. Foi ao correio para usar um telefone pblico, com medo de que seu telefone celular fosse rastreado. Felizmente, 
Patrick estava em casa e no no pasto.
-  o Ric - ele falou. - Estou em Bourke. Vou aterrissar em Gundamurra antes do sol se pr.
- timo! Encontrarei voc na pista. - Ele tinha prazer em sua voz.
- Patrick, estou levando uma pessoa comigo e prometi que ela poderia ser sua hspede por um ano.
- Um ano? - ele ficou impressionado com o tempo. Ric explicou rpida-mente a situao. Patrick ouviu e no fez nenhum comentrio at ele terminar.
- Esta  sua Lara, Ric? - ele perguntou. - A menina por quem voc roubou o carro?
Sua Lara. Ela nunca fora dele, e no era agora. Ainda...
- Tive que salv-la, Patrick. Voc a manter segura para mim? Precisa de tempo para acabar com o casamento.
- As coisas podem no acontecer como voc imagina, filho - ele advertiu, seriamente. - No  bom ela sair de uma priso para outra, se ela se sentir assim em Gundamurra. 
Mas ser bem-vinda aqui por quanto tempo quiser ficar.
-  tudo que peo. - A escolha era de Lara. Ele no podia - no queria - que ela agisse contra a prpria vontade.
-  justo.
- Obrigado, Patrick.
- No vejo a hora de conhec-la.
As coisas podem no acontecer como voc imagina... Ric ponderou essas palavras enquanto esperava Lara tomando um caf no Gecko Caf.
O que ele queria dizer com isso?
Sabia o que no queria: que Lara fosse uma esposa violentada.
Todavia, alm de libert-la de Gary Chappel... ele queria ver felicidade em seus olhos... reencontrar alguma coisa da menina que um dia fez cada momento passado 
ao seu lado incrivelmente especial.
Mgico.
Ou esse seria um sonho de juventude, a tentativa de tocar as estrelas?
Balanou a cabea, aceitando o que Patrick dissera. Mas isso no matava a esperana que tinha no corao.


CAPITULO 4

Ric estava encostado no carro em uma postura de relaxamento. Deixara o palet no avio e tinha as mangas arregaadas e o colarinho aberto.
Lara parou ao caminhar para o carro. Ao olhar para ele assim,  distncia, notou que era mais bonito do que Gary. Seus braos eram muito musculosos, e os ombros, 
largos.
Ela jamais imaginou que um reprter fotogrfico tivesse que se exercitar, mas  claro que devia haver uma rea de lazer nas zonas de guerra. E se Ric trabalhou no 
rancho de ovelhas do deserto...
Mas como ele foi parar em Gundamurra pela primeira vez?
Uma escolha estranha para um garoto da cidade.
Podia ser muito rico agora, mas certamente era muito diferente dos homens que conhecia. Nesse ponto, Ric Donato no mudou. Era diferente e ela gostava da diferena. 
Nunca teve medo disso. Era atraente, excitante. Contudo, mais do que isso, ela sabia instintivamente que ele jamais a machucaria.
Ser que era pelo fato de ter visto sua me agredida?
Mesmo quando eram adolescentes, ele a tratava com cuidado, como se ela fosse um bibel. Como uma princesa...
Bem, agora ela era pouco mais do que uma mendiga, mas no queria mais ser vista como uma princesa novamente. Estava caminhando contente com as novas roupas que comprou. 
No havia enfeites nelas. No havia elegncia. Agora que estava livre de Gary, seria uma pessoa, e no um cavalo de raa a ser exibido como possesso masculina.
Ric a viu e acenou, pronto para partir. Um homem de ao, ela pensou, quase tonta de felicidade, ainda impressionada com a forma com que ele se envolveu com sua 
fuga, chegando at a pilotar um avio particular. Mas era bom lembrar que ainda no tinha chegado ao destino final. Ainda assim, no se importava onde era ou o que 
era. Ric disse que seria seguro, e acreditava nele.
Acreditou ainda mais quando se aproximaram da pista de pouso de Gundamurra. Viu a imensa e vasta paisagem, uma plancie sem fim, longe da civilizao.
- Qual o tamanho de Gundamurra? - ela perguntou.
- Cento e sessenta mil hectares - respondeu de cabea. - Patrick cria 40 mil ovelhas aqui.
Lara fez as contas.
- Voc quer dizer que cada ovelha tem quatro hectares?
Ele sacudiu a cabea.
- Pode ser muito difcil conseguir comida aqui.
- Como Patrick toca uma propriedade to grande?
- Avio, caminho, cavalo, moto. Depende do que deve ser feito.
- As construes... parece uma pequena vila l embaixo.
- Casas, casa do gerente, residncia dos pees, a casa do cozinheiro e o refeitrio, a tosquia, o estoque, o escritrio do rancho, a escola. Normalmente, so 12 
pessoas trabalhando. Com as famlias, cerca de trinta pessoas moram no rancho. Voc ter companhia, apesar de no ser o que est acostumada. E  isolado. A correspondncia 
chega uma vez por semana. Por avio.
Como uma ilha, suficiente por si s, pensou Lara. S que era cercada de terra, e no de gua.
- Como voc veio para Gundamurra, Ric? Como voc ouviu falar daqui?
Ele encolheu os ombros.
- Quando fui condenado por roubar o Porsche, o juiz me deu uma alternativa: cumprir pena num reformatrio juvenil ou trabalhar num rancho no deserto.
Ento foi isso que aconteceu com ele!
- O Patrick criou o programa como alternativa para jovens que merecessem uma segunda chance - prosseguiu Ric. - Em nosso primeiro encontro, ele disse que Gundamurra 
significava "Bom dia" no idioma aborgine, e sempre queria que aquele dia fosse lembrado como um bom dia em nossas vidas.
- E foi?
- Muito.
Ela suspirou diante da lembrana dolorosa do dia em que a polcia o pegou no Porsche. Ric a livrou de qualquer cumplicidade, e o pai dela...
- Meus pais me mandaram direto para um internato e passaram a me vigiar de perto depois que fomos pegos.
Ele olhou ironicamente para ela.
- Para acabar com as ligaes indesejveis?
- Ningum que no tivesse as ligaes apropriadas - ela zombou de volta. - Em todas as frias eu era mandada para um resort, longe de qualquer chance de encontrar 
voc. Ou algum como voc.
- Escrevi para voc de Gundamurra. Vrias cartas. A voz dele era serena, mas ela sentia o profundo desapontamento por no ter obtido resposta.
- No as recebi, Ric.
- No. Creio que no.
- Sinto muito. Meus pais devem ter destrudo todas elas.
- Voc tinha apenas 15 anos, Lara. Eu no era bom para voc.
- Sim, era. - As palavras saram com tanta nfase que ele a fitou rapidamente. - No com relao ao carro - ela explicou. - Eu realmente gostava de ficar com voc, 
Ric.
Sua boca se suavizou em um sorriso. Seu olhar ficou mais suave tambm...
- Eu gostava de ficar com voc tambm - ele murmurou, olhando de volta para a pista onde devia aterrissar.
Ela ficou em silncio, balanada pela fora do sentimento que de repente a acometeu. Como podia desejar outro homem depois da experincia com Gary? Ric era uma passagem 
segura para fora de seu casamento destrutivo. Era grata a ele, apreciava a fantstica eficcia com que agia... Mas desej-lo...!
No. Estava emocionalmente desequilibrada. Muito provavelmente queria ser envolvida pela fora protetora dele. O desejo dominador de se sentir segura estava ligado 
a ele. Mas tinha que desfazer essa ligao. Estavam aterrissando em Gundamurra. Este lugar, sim, seria sua salvao, e no Ric Donato. Precisava ao menos recuperar 
a noo de quem era, antes de considerar a possibilidade de um relacionamento.
O charme superficial de Gary a levou ao casamento. A aprovao de seus pais tambm influenciou. A grande riqueza prometia segurana e todas as coisas boas da vida. 
Mas todas essas promessas de felicidade eram falsas e ela as engoliu. O que isso dizia sobre ela?
Tempo de pensar.
Aquele local certamente oferecia esta oportunidade.
Concentre-se em Patrick Maguire, dizia a si mesma. Ele seria a constante ao redor da qual sua vida em Gundamurra ocorreria. Uma figura paterna para Ric. Talvez uma 
figura paterna benevolente para ela tambm. Podia lidar com benevolncia.
Ele os aguardava. Era um homem grande - enorme, na realidade -, parado em frente ao Land Rover com trao nas quatro rodas, enquanto Ric taxiava o avio.
- Ele sabe que venho? - Lara de repente lembrou de perguntar.
- Sim. Enquanto voc fazia compras, eu o avisei. - Ele sorriu para ela. - Est tudo bem, Lara. Voc  bem-vinda.
Respirou fundo, aliviada. Ric cuidou disso, assim como de tudo mais. Ela notou que, de Vaucluse a Bourke, sua mente estava confusa, mal acreditava no que estava 
acontecendo. Se deixou levar, permitindo que as coisas acontecessem, desde que isso significasse se afastar de Gary.
Agora tinha que pensar, andar com as prprias pernas, para causar uma boa impresso no homem que lhe abria as portas de casa at que pudesse se libertar legalmente 
de seu casamento desastroso. Segundo Ric, um homem com o qual podia contar, mesmo no o conhecendo. Estava recebendo um presente, e talvez pudesse fazer alguma coisa 
de til para retribuir.
Estava novamente se sentindo ansiosa, quando desceu do avio com Ric carregando sacolas de compras. Ser que passava a impresso de ter comprado muito? Havia sido 
muito exagerada? Tinha conscincia de que vestia uma roupa muito elegante, e desejava troc-la por uma das mais casuais que comprara.
Patrick Maguire abriu a mala do Land Rover para guardarem as compras.
- Lara saiu de casa sem nada. Compramos isso em Bourke - explicou Ric.
Patrick balanou a cabea, sem fazer comentrios. Aparentava uns sessenta ou setenta anos. O rosto revelava linhas profundas, especialmente ao lado dos olhos. Os 
ossos eram fortes, muito bem delineados. No havia nada de fraco naquele homem do campo. Os olhos eram cinza e fizeram Lara se retrair diante de sua observao paciente.
Ric fechou a mala do carro e fez as apresentaes formais.
- Lara, este  Patrick Maguire. Patrick, Lara Chap-pel.
- Seja muito bem-vinda, Lara - ele falou, estendendo a mo.
- Obrigada... por me receber.
Ele franziu o cenho e ela notou que seus culos escuros dificultavam o contato ocular. Receosa de ele a considerar grosseira, retirou os culos.
- Desculpe, no queria... - Ela sentiu-se constrangida e envergonhada quando ele apertou os olhos para ver o machucado que os culos escondiam. - Estou horrvel. 
Por favor, me perdoe pelos culos. - Ela os colocou novamente.
Apertou gentilmente a mo dela, transmitindo uma cordialidade reconfortante.
- No se preocupe com isso, Lara. Voc se restabelecer - simplesmente afirmou.
- No quero ser um peso morto, Patrick - ela falou. - Farei o que for necessrio para me manter aqui.
Ele balanou a cabea como se concordasse, apesar de sua resposta ter sido comedida.
- Voc pode fazer isso quando se sentir bem. No h razo para ficar ansiosa.
- S acho... que poderia ser bom me ocupar com alguma coisa.
Novamente ele concordou com a cabea.
- Conversaremos sobre isso quando voc se instalar, certo?
- Sim - ela concordou rapidamente, no querendo mostrar-se exigente. Aquele territrio era to estranho que no sabia como se comportar.
Patrick soltou a mo dela, mas no se moveu para conduzi-la ao carro. Ele olhou para os dois com um ar de desafio.
- Vocs dois tm conscincia de que deve estar havendo uma movimentao intensa para que sejam encontrados.
Lara ficou tensa. Podia sentir-se plida; suava na testa enquanto o medo tomava conta de seu corao.
- Como voc sabe? - perguntou Ric.
- Mitch ligou mais cedo, perguntando se eu tinha ouvido falar de voc. Como ainda no havamos nos falado, respondi que no.
- Mitch... - Lara tentou se acalmar. - O advogado que Ric conhece?
Patrick sacudiu a cabea.
- Por que ligaria para c? - perguntou Ric.
- Queria entrar em contato com voc e achou que pudesse estar vindo para Gundamurra. Em seguida, no falou mais nada. Depois que voc ligou de Bourke, percebi que 
havia um problema - talvez no escritrio de Sidnei -, ento entrei em contato com Mitch e conversei com ele sobre a situao.
- Oh, Deus! - Lara gritou, olhando angustiada para o homem que a colocou em risco. - Eu falei, Ric. Gary no vai deixar barato. Ele... ele ...
- Sei o que ele . - Ric olhou para Patrick. - Qual  o problema?
- No, voc no sabe - ela gritou, segurando no brao dele com aflio. - Voc no morou com ele. Eu no te contei. Isso no vai parar, Ric. Ele vai perseguir voc, 
caso no consiga me encontrar. No devia ter deixado voc fazer isso. No devia... - ela sacudiu a cabea, notando que deixou de pensar nas conseqncias que Ric 
podia sofrer por ajud-la a fugir. - Preciso voltar.
- No!
Foi uma negativa violenta, e ela realmente desejava se apoiar nele o quanto pudesse, mas no era justo.
- No quero que sofra por minha causa - ela retrucou quase to violentamente. - Foi minha culpa ter... sido uma tola para me casar com Gary.
- No deixarei que voc seja vtima dele novamente, Lara.
- Voc no entende. Voc e seus amigos passaram a ser vtimas. Se ele j tiver ido ao seu escritrio...
- Kathryn deve ter procurado Mitch. - Ele olhou novamente para Patrick. - Como ele lidou com isso?
- Kathryn manteve a situao sob controle. Isso deve durar at amanh. Mas para que Lara fique a salvo aqui, Ric, deixe um rastro em outro local e vire voc o alvo 
da perseguio.
- No... no - protestou Lara, incomodada pelo problema que causava para ele.
Patrick continuou falando, desdobrando o problema.
- Assim Kathryn ter uma linha de ao legtima para seguir, caso seja importunada novamente no escritrio. Mitch vai ligar hoje  noite. Quer conversar com vocs 
dois. Estou falando isso agora para prepar-los para o que est por vir.
- No est certo - ele falou para Patrick, desejando que ele enxergasse o quanto aquilo no era correto. - Eu me meti nisso.
- Lara... - os olhos cinza pararam diante dos dela e, embora visse compaixo, para sua angstia, tambm enxergava a mesma determinao de Ric. - No h como voltar 
atrs. Ric escolheu o caminho. E concordo com ele.
- Mas... no era minha inteno...
Ele sorriu para ela em aprovao, dando as boas-vindas ao seu mundo.
- Voc  uma mulher que se importa com os outros, o que  certo e bom. Mas compreenda que h vezes em que os homens agem de acordo com o que pensam ser correto. 
No fim, todos temos que conviver conosco mesmos.
Ela conseguiu acalmar a confuso de sua mente para reconhecer a verdade que ele falou.
Era um argumento indiscutvel.
A deciso estava tomada.
Independentemente do que estava por vir, no havia como recuar.


CAPITULO 5

Ric levou Lara a um dos quartos de hspedes da sede da fazenda - havia quatro deles, enormes, na imensa casa, construdos para abrigar a famlia Maguire e receber 
seus visitantes - para que se acomodasse e tomasse um banho antes do jantar.
Patrick a deixou  vontade para usar qualquer roupa dos quartos de suas filhas, caso precisasse de algo. Elas no se importariam. As trs estavam fora por conta 
de suas carreiras, e vinham para casa de vez em quando visitar o pai. A me morrera de cncer h alguns anos.
Todas essas informaes foram transmitidas de forma afvel no caminho da pista de pouso para a fazenda, assim como um histrico de Gundamurra. O objetivo principal 
era atenuar qualquer medo que Lara tivesse sobre aceitar a hospitalidade de um estranho. Mas ela tinha outros medos e Ric foi direto ao assunto quando se juntou 
a Patrick na sala de estar.
- Voc estava testando Lara.
Era uma declarao direta, no uma pergunta, e Ric procurou nos olhos do amigo as razes para ter revelado tudo na pista de pouso, em vez de ter esperado uma conversa 
de homem para homem entre os dois.
- Foi h dezoito anos. Uma fixao da juventude pode ter prejudicado seu juzo. Queria saber se ela vale o que vai custar a voc por traz-la aqui.
- No  uma questo de preo para mim.
- Sei disso, Ric. Mas agora voc no  o nico envolvido, e eu precisava ter certeza de tudo.
- E tem?
- Sim. Havia a possibilidade de ela estar apenas usando voc por interesse prprio. Lembro que suas cartas nunca foram respondidas.
- Ela nunca as recebeu. Os pais dela... - Ric gesticulou para que ignorassem este assunto. Estava preocupado com o presente e o futuro. - Quero saber os detalhes 
do que Mitch falou.
- Parece que Gary Chappel entrou enfurecido em seu escritrio na hora do almoo querendo saber onde voc estava. Ningum sabia. Ele esperou que Kathryn voltasse 
da reunio. Ela falou que voc tinha um almoo com um amigo e que no sabia a que horas retornaria para o escritrio. Chappel falou que seu carro estava na garagem 
do subsolo. Kathryn afirmou que voc provavelmente tinha ido a p para o restaurante. Ele insistiu em obter o nome do restaurante e ela falou que no havia razo 
para fornec-lo. Isso foi o suficiente para que se livrasse dele e ligasse para Mitch para obter instrues.
Ric balanou a cabea.
- Foi o que aconselhei que fizesse se Gary Chappel aparecesse.
- Mitch recebeu o recado durante um recesso de um julgamento. Ligou para ela, ficou a par do que estava acontecendo e imediatamente mandou duas pessoas acompanharem 
Kathryn at onde ele estava. Da ltima vez que liguei, estava no escritrio e Kathryn estava com ele.
- Melhor eu ligar para eles agora.
- Use meu escritrio.
Ric se preocupava por Mitch ter que tomar medidas de proteo para Kathryn. Achava que o ideal seria ela continuar indo ao trabalho, na maior inocncia, como se 
nada tivesse acontecido. Ric no morava em Sidnei. Ele ia e vinha. Passava a maior parte do tempo em Londres. Tirar Kathryn do escritrio significava que ela sabia 
mais do que admitia. Isso a colocava sob uma ameaa constante, o que Ric no queria.
Quando ele ouviu a voz de Mitch no telefone, expressou sua preocupao. 
- Mitch, Kathryn ainda est com voc?
- Sim, ela est aqui.
- Por qu? Pensei que eu a tivesse deixado protegida. Este excesso de zelo no vai coloc-la na mira?
Fez-se uma pausa. Ric estava tenso.
- Sinto que Gary Chappel a colocar na mira, Ric - ele respondeu, com ponderao. - No estamos lidando com uma pessoa racional. Vi a fotografia. Voc fez bem em 
retirar Lara de cena. Estou totalmente do seu lado.
- Fico contente com sua aprovao. Mas Kathryn no devia correr perigo. Essa luta no  dela.
- De qualquer forma, ela  um vnculo com voc. Ele sentiu o estmago queimar.
- Voc pode proteg-la?
-  o que estou fazendo. Mas preciso de sua cooperao, Ric. E de Lara. Especialmente de Lara. Acredito que ela queira o divrcio.
- Sim.
- Preciso conversar com ela. Dar entrada nos papis o quanto antes. Mas, primeiro,  melhor voc sair da rea, Ric.
- O Patrick j me repassou este conselho.
- Bom! V para Brisbane ou Cairns amanh. No volte para Sidnei.
Teria que preparar o avio de Johnny para voar de volta ao aeroporto de Baknstown, pois no poderia fazer tudo aquilo sozinho. No seria problema.
- Pegue o primeiro vo disponvel - prosseguiu Mitch. - No ltimo momento, avise ao escritrio para onde est indo, para que a informao possa ser repassada a quem 
perguntar. Isso desviar a ateno de Kathryn, que ficar em casa amanh por motivo de doena.
- Mas quando descobrirem que estou viajando sozinho...
- Isso me dar tempo para agir, Ric. Confie em mim. Vou conseguir dar um fim nisso.
Ric respirou fundo para aliviar a tenso.
- Duvido que o divrcio oficial o detenha, Mitch.
- Mas vai deter a acusao de seqestro. Ele no poder ter a lei ao seu lado.
- Mas no acabar com as ameaas.
- Assim que falar com Lara, pretendo enviar uma cpia da foto para o pai de Gary com uma mensagem para que entre em contato comigo.
Ric ficou momentaneamente confuso com a ttica.
- Chantagem?
- Uma manobra - Mitch o corrigiu. - Ele vir com seu advogado. Conversaremos. Victor Chappel tem as rdeas da famlia sob controle. Se h algum que possa segurar 
Gary, ele  o homem.
- Ameaas. - A situao poderia ficar equilibrada novamente, pensou Ric, esperanoso.
- Acredito que Victor Chappel v querer dar um fim nisso.
- E funcionar?
- At certo ponto. Presumo que dessa forma Gary agir s escondidas. Ficar furioso, e no  do tipo que desiste, Ric. Voc ter que se proteger. Tirou a mulher 
dele.
Ric enrugou a testa. Certamente aquilo um dia chegaria ao fim. Por quanto tempo a fria podia durar? Aceitava ficar exilado, longe de Lara, aceitava que podia ficar 
em perigo por um certo tempo e tomaria medidas para se precaver, mas uma briga eterna? S o tempo diria, ele pensou. Enquanto isso...
- E quanto a Kathryn?
- Acho que ficar segura. Vou ser muito duro com Victor Chappel, dizendo que qualquer ameaa  equipe de seu escritrio ter conseqncias pblicas.
Ric suspirou aliviado.
- Amanh a essa hora as coisas j devem estar sendo encaminhadas - garantiu Mitch.
- Obrigado. No tenho palavras para agradecer. Outra pausa. Mitch limpou a garganta, mas sua voz saiu completamente rouca quando ele falou.
- Patrick falou... que era sua Lara... a de antigamente.
Ric fechou os olhos, lembrando de como falava sobre isso  noite, na hora de dormir, no alojamento. Uma fantasia de menino. At a dura realidade de no obter respostas 
para suas cartas o obrigar a enfrentar a realidade de que nunca seria aceito como era.
Seria aceito agora? Como mais do que um cavaleiro que veio salv-la?
Ele balanou a cabea. No era hora para pensar nisso.
- Sim. Mas isso foi h muito tempo, Mitch - ele respondeu.
Um suspiro profundo.
- Se eu soubesse que ela ia se casar com ele, teria contado a voc sobre Gary Chappel.
- Contado o qu?
- Um homem como este no muda de atitude com as mulheres. Isso no  conhecido, mas ele tem histrico de abuso. Acobertado, certamente.
Ric sentiu-se mal. O poder da riqueza podia ocultar uma srie de pecados. Mas nenhum poder na Terra colocaria Lara nas mos de Gary Chappel novamente. S sobre o 
meu cadver, pensou Ric, com uma raiva que enrijecia cada msculo de seu corpo.
- Farei o que puder para cont-lo legalmente. Pode contar com isso. Apenas sinto que voc tenha reencontrado Lara nessas circunstncias.
- Pelo menos ela est segura aqui.
- Sim. E Kathryn ficar comigo hoje  noite.
- E o noivo dela?
- Est em Melbourne a trabalho.
- Gostaria de falar com ela rapidamente, Mitch. Mitch passou o telefone para ela.
- Est tudo bem, Ric - Kathryn garantiu. - No posso deixar de dizer que no culpo Lara Chappel por fugir. O marido dela  assustador.
- Prometa que far tudo o que Mitch disser, Kathryn.
- Farei.
- Bom. E obrigado novamente por ajudar. Entrarei em contato quando chegar em Los Angeles.
- Cuide-se.
- Voc tambm.
Ela passou o telefone de volta para Mitch, que perguntou:
- Lara vai falar comigo agora?
- Preciso de quinze minutos. Eu ligo de volta. Ser que Lara estava calma o bastante para passar as
informaes de que Mitch precisava? Eles corriam contra o tempo. Esperando que ela tivesse presena de esprito para cooperar falando para Mitch o que fosse necessrio, 
Ric foi at o quarto de hspedes, detestando a idia de ter que faz-la passar por isso.
J sofrer muito com o marido. O medo de Chappel e do que ele podia fazer eram certamente baseados na experincia que tivera, e que Ric s podia imaginar. Um histrico 
de abuso... S Deus sabia o que isso abrangia. A palidez, provocada pelo medo, logo aps o que Patrick falara na pista de pouso, foi muito chocante. Ser que ela 
conseguiria pensar diante da conjuntura?
Bateu na porta dela, a contragosto, sabendo que no seria fcil convenc-la a falar. Desejava desesperada-mente que tivesse conseguido livr-la daquela tormenta 
sozinho, sem envolver outras pessoas, apenas os dois, mas era tolice sonhar que tudo fosse diferente. No era. Nunca seria.
Ela abriu a porta e ele ficou parado, olhando para ela, incapaz de dizer uma palavra, mudo por uma torrente catica de emoes intensas. Sua Lara...
Vestia cala jeans e uma camisa xadrez azul e branca. Apesar do olho inchado e machucado e dos anos que passaram, ela ainda parecia ter 15 anos. Jovem, muito vulnervel. 
Ele desejava peg-la em seus braos e prometer que a vida seria boa para ela. Que estava segura com ele. Que a amaria como devia ser amada. Que no havia nada a 
temer.
Entretanto, ela no tinha 15 anos, e os anos que os separaram carregavam um peso que no podia ser apagado. Ainda no. Talvez jamais. Um passo de cada vez, dizia 
a si mesmo.
- Mitch precisa falar com voc agora, Lara - ele falou, incapaz de ser delicado nesta etapa. Concentrar-se na ao era a nica forma de manter os sentimentos de 
lado.
Ela ergueu o queixo.
- Estou pronta - falou, claramente determinada a fazer o que fosse necessrio para consertar uma situao que agora envolvia outras pessoas.
Ficou intensamente aliviado por ela ter superado a idia de voltar para o marido. Lara saiu do quarto e o seguiu.
- Voc falou com Mitch, Ric? - Sua voz era tensa.
- Sim.
- Kathryn est bem?
- Sim. Est com ele.
Embora tentasse, no conseguia esconder o nervosismo. Tentou sorrir.
- Gostei dela. Ela ... especial para voc?
- Admiro muito Kathryn como funcionria e como pessoa, mas nunca tivemos um envolvimento mais ntimo. Ela  noiva, est para casar. - De repente, pareceu importante 
acrescentar: - No tenho nenhum lao amoroso com ningum.
- Oh! Eu apenas... - Ela balanou a cabea, escondendo o rubor de suas faces com os cabelos compridos. - Voc parecia ter um bom relacionamento com ela.
- Eu a treinei para ocupar a posio que tem no escritrio. Ela sabe exatamente o que quero.
Lara balanou a cabea.
- Tem certeza de que ela est bem?
A ameaa de Gary pesava na cabea dela. Ric a colocou a par do que Mitch fizera e de suas intenes.
- Victor no quer saber - ela comentou. - Gary  filho nico.
- Acredite em mim, Lara. Mitch no deixar Victor fazer vista grossa para o que o filho representa.
- Implorei para que me ajudasse. Ele no me ouviu. Ele se esquivou de tudo, dizendo que cabia a mim e Gary lidar com... nossas diferenas. - A ltima palavra foi 
carregada de frustrao e desolao.
- Fale para Mitch - aconselhou Ric. - Ser bem mais eficiente em um contexto jurdico.
Ela comeou a esfregar as mos uma na outra.
- Contarei para ele, mas... - Ela olhou para Ric, angustiada. - Prefiro conversar com ele a ss.
- Esperarei do lado de fora. Pode me chamar se Mitch precisar falar comigo novamente.
Ela respirou, aliviada.
- Obrigada.
Vergonha. Sabia o quanto Lara sofrer e nada do que dissesse apagaria aquilo. No momento, ela no podia suportar que ele ouvisse o pior. Ric sabia que no faria 
qualquer diferena no que sentia, mas ela ainda no acreditava nisso. Entretanto, tinha que compreender e apreciar a necessidade de honestidade.
Foram para o escritrio. Ric a acomodou em uma cadeira ao lado do telefone. Antes de ele pegar o aparelho, enfatizou a gravidade da situao.
- Lara, sei que voc detestar isso, mas precisa fornecer a Mitch toda a informao necessria para ele comear a batalha. A foto  boa, mas se voc puder falar 
mais...
Ela balanou a cabea, ainda sentindo as faces ardendo com o calor da humilhao.
- No vou esconder nada, Ric. Eu devo isso... a todos vocs.
- No. - Ele franziu a testa diante da responsabilidade que ela colocava nos prprios ombros. - Voc deve isso a si mesma - ele falou, enfaticamente. - A verdade 
vai libert-la, Lara. E essa  a melhor arma que Mitch pode usar a seu favor. 
Ela o fitou com os olhos cheios de coragem. 
- No vou me poupar, pois h muita coisa em jogo, em risco, por minha causa. Ligue para ele, Ric, estou pronta.
Ligou novamente para Mitch e deixou Lara falar com ele.
Fora do escritrio, caminhou pela varanda para gastar um pouco da energia violenta que sentia ao pensar no que ela sofrer nas mos de Gary Chappel. Apertava as 
prprias mos. Era timo saber que Mitch estava conduzindo as coisas em Sidnei, pois no conseguiria agir racionalmente se estivesse perto dos Chappels.
Era melhor sair do caminho, e no somente para se separar de Lara e desviar a ateno de onde ela estava.
Ela precisava de um tempo longe dele, tambm.
Patrick seria uma companhia melhor. Uma referncia paterna. Algum que no quereria nada alm do bem-estar dela. Lara recuperaria a confiana ao lado de Patrick, 
no se sentiria envergonhada. Seria capaz de ser ela mesma. No havia sentido ficar avaliando uma lembrana do que era antes de Gary Chappel.
Sim. Estava convencido de que devia partir, apesar de sentir-se muito mal por ter que deix-la. Tentava se convencer de que ela no precisava dele. Na realidade, 
ele podia ser prejudicial ao processo de cura. No havia alternativa. Tinha que partir.
A porta do escritrio abriu-se. No tinha idia de quanto tempo passara. Lara acenou para ele.
- Mitch quer falar com voc, Ric.
Estava plida, chateada, mas no havia sinais de lgrimas. Ele pegou o telefone.
- Voc obteve o que precisava? - ele perguntou, desejando que este tormento terminasse para Lara.
- Tudo, menos um fax com a assinatura de Lara me designando como seu representante legal.
- Faremos isso agora. Obrigado por tudo, Mitch.
- Deixe comigo, Ric. Cuide-se.
- Voc tambm.
Foi ao computador e olhou para Lara.
- Quase terminado. Digitarei uma autorizao para Mitch ser seu representante e voc assina, certo?
Ela concordou.
Levou apenas alguns minutos. Ela assinou com uma firmeza surpreendente e observou enquanto ele enviava o fax. Antes que Ric tomasse conscincia do que estava acontecendo, 
seu brao estava ao redor dos ombros dela em um abrao confortante. Ela no se esquivou do toque dele. Na verdade, se deitou no brao dele, para alvio de Ric... 
e um certo prazer oculto.
- Est acabado para voc, por ora - ele garantiu. Ela estremeceu e deitou a cabea no ombro dele.
-  o comeo de outra coisa, Ric - ela falou, tristemente. - Estou preocupada por voc e por todos que esto envolvidos.
Ele roou a face nos cabelos dela, incapaz de resistir ao contato to prximo. Uma onda de ternura continha o desejo de uma ligao ainda mais ntima com ela.
- No se preocupe comigo. Sou um sobrevivente. - Antes de ser tomado pela tentao, acrescentou rapidamente: -  melhor nos unirmos a Patrick. Sem dvida, ele nos 
espera para jantar.
- Sim - ela concordou, levantando a cabea com um sorriso inseguro. - Voc no existe, Ric Donato. Sabia disso?
Queria que o comentrio expressasse algo mais do que provavelmente expressava. Ele a salvara. Isso o tornava especial aos olhos dela. Controlou-se para retribuir 
o sorriso.
- Voc ver que Patrick tambm no existe. Ser bom para voc, Lara. Fique  vontade com ele.
-  pena que eu no tenha vindo com vocs para c h anos. Uma vida diferente...
- No olhe para trs. Olhe para a frente. Certo?
- Tentarei - ela prometeu.
Conduziu-a at a porta, tirando casualmente o brao do ombro dela. Dar conforto era uma coisa. Pression-la era outra. Apesar disso, quando caminharam at a sede, 
pegou a mo dela e a segurou, como faziam anos atrs.
Os dedos dela se agitaram por um momento, depois se acomodaram, contentes por aceitar a sensao de companheirismo e amizade. Ela ficara muito tempo sozinha, pensou 
Ric. Tinha que se ligar a algum que se importasse com ela.
Ele se importava.


CAPITULO 6

Lara no conseguia dormir. Sua cabea ficava revirando os acontecimentos do dia. Sabia que o que acontecesse agora estava fora de seu controle. No que o tivesse 
tido alguma vez antes, mas isso afetava somente a ela. Preocupava-se com Ric, com o que Gary podia fazer para prejudic-lo e ao seu negcio.
A riqueza quase ilimitada deu  famlia Chappel um poder insidioso. Um poder corrupto. Por isso, no acreditava que o pai de Gary pudesse impedir que o nico filho 
fizesse uso de tal poder. Victor no tinha Gary sob sua vista o tempo todo. Podia pensar que uma advertncia vinda dele - ou mesmo uma ordem - seria respeitada, 
mas Lara sabia mais. Gary concordaria diante de Victor, mas faria tudo ao contrrio pelas costas.
Se no fosse possvel atingi-la, Ric certamente seria o alvo de sua ira. Ric, que no pensou nas conseqncias quando resolveu salv-la. Ric, que segurara sua mo 
esta noite, mas que iria embora no dia seguinte, tornando-se um alvo mvel para Gary. Se algo de ruim acontecesse com ele, como suportaria? Ele foi to bom para 
ela.
Mais do que isso, ela sentia... se Ric sasse de sua vida novamente, um terrvel buraco negro se formaria, e nada seria capaz de preench-lo novamente. Havia uma 
ligao entre eles. Sentia que esta ligao crescia a cada dia, se fortalecia, se aprofundava em sua alma. No era porque dependia tanto das iniciativas dele. Era 
o prprio Ric. Seu jeito de ser. Seu jeito de agir com ela, sabendo intuitivamente do que precisava, dando apoio, se importando em um nvel mais profundo do que 
ela jamais conhecera.
Seu casamento foi totalmente desprovido desse cuidado, como um deserto de pesadelos emocionais, sem osis. Ela deveria sentir-se em paz ali, mas como poderia, se 
Ric ia se arriscar por sua causa?
Ao sentar-se com ele  noite para jantar, observando-o, ouvindo a conversa com Patrick, se flagrou vendo o menino que conheceu transformado em homem. Ficou maravilhada 
com o quanto ele crescera naquele perodo, embora alguns aspectos tenham permanecido: as expresses do rosto, a forma com que movia as mos, a cadncia da voz, a 
maneira respeitosa de se dirigir a ela. Ric Donato...
Certamente no se desapontava com as lembranas que tinha dele. Longe disso. Se ao menos...
No. Era estupidez, futilidade pensar em se ao menos. Estava ali em Gundamurra, onde Ric encontrou o caminho para a vida adulta. Era um local encantador, nada parecido 
com o estilo de vida primitivo que imaginara. Havia at uma equipe para limpar a casa e cozinhar.
A casa da sede era grande, construda em quatro alas que abraavam um quintal com uma inacreditvel fonte no meio do gramado, sem contar com as jardineiras floridas 
e pimenteiras para dar sombra.
Uma varanda percorria os quatro lados da casa, e os quartos eram muito arrumados. As salas tinham antiguidades bem conservadas e os quartos de hspedes apresentavam 
moblia bem polida. A colcha de patchwork da cama tamanho queen era um trabalho de considervel valor artstico.
Tudo aquilo conferia uma sensao de slidos valores antigos que durariam mais do que qualquer coisa que um mundo mais sofisticado declarasse como fundamental. A 
decorao da manso Vaucluse foi um exerccio para criar a imagem correta: tudo  mostra, nada que fizesse com que a casa parecesse um lar.
Quartos frios. Quase perfeitos esteticamente, mas sem personalidade. Como podiam ser diferentes se eram a projeo do interior dos decoradores que nunca moraram 
ali? E, claro, Gary era a pessoa consultada, e no ela, que aprendeu muito rapidamente a no mudar nada, a no se intrometer. Melhor sorrir e concordar com tudo.
Mas aquilo estava encerrado agora. Olhar para a frente, e no para trs, como Ric falou. Mas olhar para a frente abrangia a partida de Ric no dia seguinte, e ela 
estava assustada com as conseqncias disso. Se estava segura ali, por que ele tambm no podia ficar? Por que tinha que se arriscar? Ou ela estava sendo apenas 
egosta ao desej-lo a seu lado?
Sua vida poderia ficar em espera em Gundamurra, mas Ric tinha um negcio internacional para dirigir, outras pessoas dependiam dele. Seria totalmente injusto se lhe 
pedisse para ficar. J fizera mais do que o suficiente por ela. Mas se o perdesse novamente...
Ouviu passos na varanda, do lado de fora do quarto. Devia ser Ric. Ele tambm estava dormindo naquela ala. Depois do jantar, Patrick sugeriu que ela se recolhesse, 
pois percebeu o quanto estava cansada. Era verdade, mas suspeitou que os dois queriam conversar a ss e ento os deixou. No entanto, preferia a companhia deles do 
que a prpria.
Sentia-se exausta fisicamente. Mental e emocional-mente tambm. Mas no conseguia desligar o pensamento. Talvez fosse possvel em algum momento,  noite... e se 
ainda estivesse acordada quando Ric sasse de manh...
Ric est indo agora...
Levantou correndo da cama e saiu pela porta de frente para a varanda com o corao saltando com uma urgncia que no podia ser negada. Quando olhou, s conseguiu 
ouvir os passos dele se afastando, uma figura sombria na escurido. Sombria demais, quando ela queria algo mais real.
- Ric!
Ele parou. O tempo que demorou para se virar pareceu uma eternidade, fazendo com que ela pensasse que o confundira com algum. Em dvida, recostou-se no portal, 
ciente de que no vestira o robe que comprara.
Apesar de o pijama de algodo no ser indecente, no era roupa para encontrar um homem no meio da noite.
Sentiu-se mais calma quando viu a silhueta do homem. Era Ric, que olhou de volta para ela, virou e manteve a distncia, mas pelo menos sabia que o chamara.
- Precisa de alguma coisa, Lara? - ele perguntou, calmamente.
Voc. Preciso de voc.
As palavras ecoavam em sua cabea.
No podia pronunci-las.
Elas pediam muita coisa.
Simplesmente ficou parada, olhando para ele, quase incapaz de conter a fora turbulenta que a pressionava a correr at ele, abra-lo e jamais deix-lo partir. Talvez 
essa fora o tenha movimentado. Depois de uma pausa que demandava respostas, ele caminhou lentamente at ela, aproximando-se e olhando para Lara com o que parecia 
uma forte concentrao de energia.
- No est conseguindo dormir? Gostaria que eu...?
- No, quer dizer, sim...no consigo dormir - ela gaguejou.
- Duvido que Patrick tenha remdios para dormir. Talvez se voc tomar um chocolate quente...
- No... no... eu s... - Ela respirou fundo, tentando se recompor e ser razovel.
- Est com medo, Lara? - ele perguntou.
As palavras escaparam sem que ela pudesse interromp-las.
- Voc me abraa? S por essa noite, Ric. Me abraa?
O pedido era a prova de que ela tinha medo - medo de jamais conseguir outra coisa dele alm disso, medo de que Gary pudesse tomar Ric dela, assim como tudo que tomara, 
medo de que sua vida fosse dominada pela perda do que deveria ter sido.
Viu o peito de Ric se expandir quando ele respirou fundo. Sentiu uma fora aumentando, mas estava muito carente para discernir se isso significava doao ou rejeio. 
S podia esperar, com todos os nervos de seu corpo tensos pelo desespero que ansiavam pelo carinho que ele mostrara por ela.
- Lara... - Ser que a voz dele tambm estava demonstrando carncia? Mas ele no se movia. No a tocava.
- Por favor... - ela pediu, lutando contra a rejeio que captava nele. Arriscou com um argumento forte, tocando-o em um apelo emocionado. - Pode no ser sensvel. 
Pode ser loucura. Mas voc vai partir amanh e eu...
Ric no conseguiu se controlar. Seus ps responderam antes que o crebro pudesse sequer tentar impedi-los, caminhando para a frente por conta prpria. E seus braos 
a envolveram em um abrao, impedindo qualquer outra ao. O corpo macio e esbelto dela se arqueou contra o dele e ela levantou os braos para envolver seu pescoo, 
prendendo-o no abrao.
Era estranho como estar em territrio aliengena, ele dizia a si mesmo, sentindo-se s e assustado com o que o futuro reservava para ela, precisava de conforto e 
segurana. Ele era a nica pessoa da famlia a lhe dar apoio. Mas no tinha o direito de tom-la como sua. No tinha direito...
Lara aninhou o rosto no pescoo dele. Ric esperava que ela pudesse ouvir as batidas frenticas de seu corao. Os seios dela estavam pressionados contra seu peito. 
Tinha que segurar a tentao de descer os braos e apert-la ainda mais, unindo a barriga e as pernas dela s dele para sentir toda a sua feminilidade, a essncia 
do que sempre a fizera desejvel.
Sentiu o prprio corpo excitado e falou rapidamente, para distrair-se do desejo sexual que ela podia rejeitar.
- Voc ficar segura, Lara. Prometo - comentou, enfaticamente.
- Queria que ficasse comigo.
O murmrio ansioso despertou nele sensaes que ameaavam qualquer senso comum. O calor da boca de Lara se movendo contra a pele dele enviou uma onda de excitao 
por todo o seu corpo.
- Eu voltarei - ele garantiu, com a voz trmula por ter que controlar a excitao extrema. - E apenas uma questo de tempo.
- Tempo... - Ela soltou um suspiro que devastou as boas intenes dele. - Tanto tempo j passou, Ric. Anos... anos de saudade - ela sussurrou.
Ele respirou fundo, desesperado por um pouco de oxignio para acalmar a forte agitao gerada pelas palavras dela. No estava querendo dizer isso. Certamente teve 
uma vida boa antes de se casar com Gary Chappel... uma modelo bem-sucedida, requisitada e admirada...
- No quero perd-lo novamente - ela continuou, com a voz tremendo de paixo, estimulando o desejo que deveria ser contido.
- Voc no precisa se preocupar. Tudo vai dar certo - ele garantiu. Ric resolveu agir, movimentando-a para o seu lado, com a inteno de conduzi-la para dentro do 
quarto. - Venha. Quando voc acordar amanh, se sentir uma mulher livre.
Levou-a para dentro com a inteno de coloc-la na cama, sentar um pouco, mas ela o interrompeu antes de chegarem na cama, falando atropeladamente.
- E se ele levar voc tambm? J me tirou tanta coisa. Se ele me tirar voc, Ric... voc acha que me sentirei livre algum dia?
Ser que era simplesmente o medo do que poderia acontecer com Ric que gerava aquela emoo violenta? Ele colocou as mos sobre os ombros dela, apertando gentilmente 
os msculos.
- Lara...  melhor que eu v.
Viu as lgrimas iluminarem os olhos dela.
- No posso suportar isso - ela gritou e atirou-se em cima dele, envolvendo-o pela cintura com os braos.
Estava to prxima que parecia que seu corao batia contra o dele. Ric no conseguia pensar, no queria pensar. As mos dele traaram a curva da espinha dela, a 
cavidade de suas costas, tocando tudo que se permitia tocar. Enterrou o rosto nos cabelos sedosos dela, roando, beijando, respirando.
Era Lara... no era parte de sua imaginao, mas carne e osso de verdade, excitando-o pelo que sentira falta por todos esses anos. Ela preencheu todos os seus sentidos, 
fazendo com que remoesse suas lembranas, implorasse por mais, apesar de ter medo de obter mais do que poderia naquele momento e naquele local.
No havia como esconder a ereo que expressava o desejo que tentava ocultar. Esperava que ela se afastasse, esperava um rompante de constrangimento mtuo que o 
faria agir com certa sutileza, atribuindo a excitao a algo que nem conseguia imaginar.
Mas ela o apertava to forte, parecia que se abrigaria dentro dele, se pudesse, como se seu calor e sua fora fossem o elixir da vida . Tinha que saber que ele estava 
reagindo a ela, como homem, no como o cavaleiro cujo nico desejo era ajudar. Ele era um homem, ardendo de vontade de possu-la como mulher.
Ela levantou a cabea.
Ele no queria olhar em seus olhos, no queria ver...
- Me beije, Ric.
Fitou-a com descrena e um forte desejo brigando em seu corpo. Ser que ouviu bem o sussurro suave que ecoou dentro dele?
- Por favor - ela pressionou, com o rosto inclinado para ele em um convite. - Me beije como fazia quando no conhecamos nada mais. Apague todo o resto. Por favor.
A lembrana veio com fora total, apagando qualquer resistncia que pudesse ter. Abaixou a cabea na direo do rosto dela, direcionando o beijo pela compulso de 
recapturar o que se perdera, roando suavemente o lbio contra o dela, provando aos poucos o que parecia uma estranha mistura de doura com amargura, pois ele estava 
intensamente ciente da vulnerabilidade dela, do dano que sofrer.
A inocncia se fora para sempre. No podia traz-la de volta, apesar de obter sua resposta trmula, de ela corresponder s iniciativas dele, a aluso de avidez para 
explorar mais... dezoito anos se passaram e o amor que ele queria mostrar aos 16 anos explodiu em seu beijo.
No queria que o beijo virasse outra coisa. Ela o estava estimulando? Ou eram apenas os anos de experincia sexual que o pressionavam a lev-la para uma viagem mais 
profunda, onde a paixo incendiava e ansiava por mais e mais satisfao? Um beijo no era o bastante. Um beijo incitava um ardor excitante por mais. E mais.
Ela estava viajando com ele, o corpo inteiro dizia que era o que queria fazer. A boca mal deixava que ele respirasse, se doando intensamente. As mos alisavam as 
costas dele, puxando-o para perto. Sua barriga roava a ereo dele como se brincasse com ela, alimentando o desejo dele, se deleitando com isso.
A cabea dele borbulhava com uma vitria louca. Lara era dele. Estava se dando a ele. O poder puro da necessidade mtua de um pelo outro tornava isso certo... no 
tornava? Tinha que tornar. Seu corpo ansiava pela satisfao final de se unir intimamente a ela. Ele os conduziu at a cama, suas mos deslizaram pelo elstico da 
cintura da cala dela, prontas para...
Ele foi acometido por uma onda de sanidade, parando abruptamente.
- No pare, Ric. Por favor.
O pedido caloroso seduziu toda a razo por um momento... mas ele queria mant-la segura, e se continuasse sem...
- Lara... - Estava angustiado. - No tenho nenhum preservativo. Precisamos parar.

CAPTULO 7

Preservativo?
Lara sentiu ondas de histeria percorrerem seu crebro. No possua nenhuma proteo contra as investidas sem amor de Gary e Ric se preocupava em interromper tudo 
porque tinha medo de engravid-la? Se tivesse que acontecer, teria acontecido na noite anterior, ento qual seria a diferena?
A nica - e enorme - diferena era que ela desejava fazer isso com Ric... desejava com todas as foras. Era como devia ser... era o que sentia por ele... e se no 
tivesse agora...
- Est tudo bem. Estou tomando plula - ela falou, sem considerar se poderia estar efetivamente protegida ou no. Por que faria com que Ric se preocupasse com isso 
se Gary...?
No, no se permitira pensar sobre aquela ltima noite.
Precisava viver a noite de hoje.
E queria preencher sua mente com Ric e as incrveis sensaes de ser amada, ao invs de brutalmente usada. Queria sentir as mos dele se movendo em seu corpo novamente, 
mos carinhosas, mos que provocavam excitao, que sabiam como acarinhar, no machucar. E sua boca beijando-a com o calor da verdadeira paixo - paixo na qual 
podia se glorificar com felicidade, pois era muito bom.
- No quero feri-la - ele falou, com a voz distorcida. - Desculpe. Estava pensando...
- Voc no vai me ferir. - Ela acreditava nisso. No era ele quem machucava.
Ele balanou a cabea, ainda mais preocupado.
- Se voc tiver outro machucado, Lara...
- No. Parei de lutar - ela falou, desesperada para que ele entendesse. - Era melhor no brigar. Oh, Deus. - Ela levantou as mos, desesperada. - No me faa lembrar. 
No deixe que ele fique entre ns. No entre ns. Ele sempre vence.
Mas no agora. Uma forte determinao substituiu o medo. Tinha que interromper o recolhimento de Ric. Gary no venceria naquela noite. No naquela noite.
As mos tremiam quando tentava abrir os botes da camisa de Ric, com a ntida inteno de retomar o que devia ser terminado. Seus dedos se moviam desajeitados, mas 
ela agia com pressa e obstinadamente. O peito musculoso dele se encheu quando ela o revelou, e ficou parada diante do que desnudara, mal acreditando que tinha sido 
to atrevida.
Ele no era magro como Gary. Um ninho de cabelos pretos rodeavam seus mamilos e desciam at sua cintura. De alguma forma o tornavam bastante masculino - muito diferente 
-, e no polido e sofisticado. Um homem de verdade. Um homem verdadeiro. O tipo de homem que protegia sua mulher.
S que ela no queria proteger-se de conhecer totalmente Ric Donato. Ele podia entender agora? Atnita diante do que acabara de fazer, Lara estava meio paralisada, 
ainda segurando as bordas da camisa de Ric. Sentiu-se totalmente aliviada quando as mos dele cobriram as suas, levando-as para o lado do corpo dela.
Isso significava que ele estava prestes a se afastar?
A deix-la?
Ela olhou para ele em protesto. O rosto dele parecia retesado, esticado, e seus olhos brilhavam como se cintilasse um fogo interno.
- Tem certeza disso, Lara?
A voz tinha um comando firme. Totalmente controlada.
Ele estava lhe dando a alternativa, insistindo que escolhesse. No era como Gary. Nem um pouco como Gary. Ela sentiu um forte peso sair do corao. A ansiedade que 
apertava seu peito diminuiu. No era rejeio, mas um presente que ele oferecia. Uma onda de alvio intenso abrandou a preocupao que teve de que ele visse algo 
de errado nela... muito errado para que se envolvesse mais profundamente.
- Tenho certeza - ela falou. No havia pausa para reconsiderar. - Quero voc, Ric. Preciso de voc.
Ainda sentia uma certa dvida, mas neg-la naquele momento seria impossvel. Necessidade, desejo, seja o que fosse para ela... ele s podia esperar que estivesse 
certo em continuar, que isso no teria pssimas conseqncias.
Levantou as mos dela, pressionou as palmas contra seu peito, sentindo o corao martelando como se quisesse se libertar da gaiola e ser tomado por ela. Policiou-se 
para ir devagar, dando a ela a chance de pedir para parar. A violncia da prpria necessidade tinha que ser contida, canalizada para dar a Lara o mximo de prazer, 
para que esquecesse o que quer que tenha sofrido nas mos do marido.
Tinha que deixar uma boa lembrana para ela, para que tivesse esperana no futuro, para que aprendesse que os homens no so todos iguais ao maldito marido dela. 
Ela pedia isso para ele naquela noite, e no outro dia. Ric tinha plena conscincia do risco de ser simplesmente um ponto de virada para ela, apesar de que se fosse 
mais... se ela sentiu saudade dele todos esses anos... Podia ser o certo. Ele queria que fosse o certo. Precisava que fosse o certo.
Sem pressa, desabotoou a camisa do pijama dela e o retirou lentamente pelos ombros, at que descesse pelos braos. Ela deslizou as mos no peito dele e esticou os 
braos para deixar a blusa cair no cho. Ficou absolutamente imvel, tensa por antecipao - ou seria medo? - e esperando para ver como ele a tocaria.
Ric tirou a prpria camisa, os dois ficaram em igual condio, compartilhando a seminudez, a mesma vulnerabilidade. Pegou as mos dela novamente, seus dedos se entrelaaram 
suavemente aos dela. Sentiu que ela relaxou, olhando para ele com confiana.
Estava tudo bem.
Ela no tinha medo dele.
Acariciou os braos de Lara com um toque leve, amando a maciez sedosa de sua pele. Ela brilhava como prola reluzente na escurido, que no parecia mais to escura. 
Podia v-la muito claramente, o declive feminino de seus ombros, o pescoo longo e gracioso, a rigidez dos seios.
Traou as curvas desses seios, conhecendo a forma, se deleitando com a liberdade para fazer isso, preenchendo as mos com a linda maciez, roando os polegares em 
seus mamilos, despertando uma excitao sedutora.
Ela sentiu a respirao acelerar, mas no o interrompeu. Na realidade, aproximou-se, tocando-o, surpreendendo-o com um pedido.
- Quero v-lo tambm, Ric. Quero conhec-lo por completo.
Ele ficou contente em obedecer, retirando o resto de sua roupa e, em seguida, a cala do pijama dela, passando os dedos nas suas panturrilhas, por trs de seus joelhos, 
at suas coxas, sentindo-a estremecer diante de seus toques, sem se esquivar deles. Apalpou as curvas mais voluptuosas de suas ndegas e os dois tiveram um contato 
corporal completo.
Ela se aproximou com vontade, envolvendo o pescoo dele com os braos mais uma vez, levantando o rosto para ser beijada, e enquanto ele beijava suavemente a testa, 
as faces, o nariz, a boca, ela se mexia contra ele de uma forma tmida, experimental, ainda no totalmente sensual, mas incrivelmente tentadora, atiando o desejo 
que ele lutava para conter.
A paixo dele por ela se incendiou novamente, transformando-se em urgncia. Era difcil pensar alm da necessidade que surgia em seu corpo. Mas precisava saber se 
ela j estava pronta tambm, e no somente em fase exploratria como se sentia. Ele os conduziu para a cama, deitando-se ao lado dela para evitar o contato mais 
tentador.
Beijou seus seios e deslizou a mo at o vrtice de suas coxas, tocando para ver se ela se abriria para ele. Nenhuma resistncia. Nenhuma relutncia. Ela deu boas-vindas 
ao toque dele com um calor mido que aumentou ainda mais sua excitao.
Lara enroscou os dedos nos cabelos dele, puxando, pressionando, e ele se moveu em ritmo errtico, colocando seus mamilos na boca, sugando, soltando. Ela arqueou 
o corpo na direo dele. A respirao era rpida e entrecortada.
Ele mudou a posio do corpo, salpicando beijos na barriga dela. Posicionou-se entre suas pernas, movendo a boca para o centro de sua sexualidade, pois desejava 
provocar o mximo de prazer, usando toda a experincia sexual que adquirira com o passar dos anos. Precisava mostrar a ela como devia se sentir, pressionando-a gentilmente 
para o pinculo do prazer final.
Ela gemia, se arqueava mais, com os msculos internos se retesando contra o carinho dos dedos dele. Ric fazia o que considerava uma mgica bem-aventurada, atraindo-a 
com pequenas ondas extasiantes de sensao, apoderando-se de cada pedao de percepo, levando ao nico fim possvel: o clmax que um homem e uma mulher poderiam 
sentir juntos.
- Chega... chega... por favor... Quero voc, Ric.
Ela enterrou as mos nos ombros dele, precisando pux-lo para t-lo dentro de seu corpo. Ele no precisava mais pensar, no tinha que recuar. Prosseguiu, mergulhando 
dentro dela e cobrindo seu corpo ferozmente arqueado, exultante pelo gemido de satisfao ao sentir o pleno poder dele se aprofundar, responder  doce nsia, liberando 
a tenso.
Ao atingir a parte mais ntima, cobriu-lhe a boca de beijos, num movimento suave, fazendo a pergunta, pois precisava que ela respondesse positivamente, j que no 
tinha como voltar atrs. A lngua dela se enroscou na dele em uma dana maravilhosa, quase como se reverenciasse a ligao entre eles.
Foi o bastante.
Mais do que o suficiente.
Era incrivelmente excitante sentir o corpo dela se mover para corresponder ao ritmo do seu, as pernas o incitarem a ir mais rpido, rendendo-se inteiramente  intensidade 
da unio. Para Ric, era o ato de amor mais poderoso de sua vida; unir-se to intimamente a Lara, senti-la receptiva a ele, desejando viver aquele momento com toda 
sua vontade, assim como ele.
Ciente de que ela tinha chegado ao orgasmo, Ric ainda se controlou o quanto pde, escondendo-se na sensao de Lara entregue a ele com uma totalidade que preenchia 
cada sonho que sempre tivera com ela. Quando a tenso finalmente foi transformada em alvio, Ric tomou as rdeas de sua vida, e quando tudo terminou e ele abraou 
Lara, mantendo-a perto de seu corao, sentiu o que era a felicidade.
Ter aquela mulher.
Abra-la.
Am-la.
E sentir que ela o amava.


CAPTULO 8

Um forte som penetrou no sono de Lara e a acordou.
O avio!
Ric... saiu do lado dela...!
Levantou-se da cama, percebeu que estava nua, pegou o robe na cadeira em frente  penteadeira, enfiou os braos nas mangas o mais rpido que pde e o envolveu na 
cintura, enquanto corria para a varanda.
Tarde demais para dizer adeus. O avio j estava no cu. Mas ela queria v-lo, nem que fosse apenas para sentir que Ric estava seguro e o vo tranqilo. S conseguiu 
dar uma olhadela. Naquele momento, o avio sobrevoava o telhado da sede e ela s conseguiu ouvir o rudo, que logo desapareceu tambm.
- Tenha uma viagem segura, Ric - ela murmurou, desejando que ele se mantivesse longe de Gary o mximo possvel para manter-se a salvo.
Uma triste sensao de vazio a acometeu quando entrou no quarto. Era impossvel projetar quanto tempo levaria para ver Ric novamente. Se o visse novamente. Seu corao 
diminuiu a batida diante dessa possibilidade. Ele disse que voltaria. Tinha que acreditar que voltaria, pois estava em posio desfavorvel para mudar qualquer coisa 
para ele ou qualquer outra pessoa. Tudo o que se relacionava a Gary estava fora de suas mos.
Mos mais fortes do que a sua estavam lidando com isso agora, dizia a si mesma, mas ainda tinha medo por Ric, apesar de todas as suas garantias. Ele foi to bom 
para ela, de todas as formas. Estava extremamente feliz por ter a lembrana do quanto foi bom com ele; fazer amor com um homem que sabia como agir, inspirar uma 
mulher a se sentir linda e preciosa, intensamente acarinhada e protegida.
Olhou para as marcas que a cabea dele deixou no travesseiro. Enterrou o rosto ali, desejando respirar todo o cheiro que ele deixara para trs. Fechou os olhos e 
se concentrou na lembrana do prazer que ele propiciara, do toque mais leve  crescente e incrvel sensao que tomou conta dela, em um mar de xtase.
Por quanto tempo ficara flutuando naquele contentamento enquanto Ric simplesmente a abraava? Era como se o prprio tempo tivesse parado e eles estivessem em um 
mundo paralelo, completo. Lembrou-se da batida do corao dele, da forma reverenciai com que lhe tocava o corpo, desejando que ele visse que a fazia sentir-se incrivelmente 
especial, assim como ele era. Queria ter falado isso para ele. De alguma forma, na noite anterior, a sensao de compartilhar algo to surpreendente foi to forte, 
to profunda, que as palavras pareceram triviais, sem utilidade para expressar o que foi alm da possibilidade de descrio. A comunicao silenciosa, fsica, parecia 
mais correta. Simplesmente ficaram juntos. Ser que Ric entendeu?
Deveria ter dito algo?
Obrigada foi a nica coisa que falou. E ele sorriu. No respondeu mais nada. E no foi necessrio. Ele dera o que ela pedira. Ele estava contente e ela, satisfeita. 
No precisava ouvir que o prazer foi mtuo.
Ento foi tudo bom.
Sem arrependimentos dos dois lados.
Ela suspirou e rolou na cama, ciente de que teria que enfrentar aquele dia - sem Ric - e tomar algumas medidas para ter uma vida diferente.
No vou esquec-lo, Ric - ela prometeu, silenciosamente. - Acontea o que acontecer, vou me tornar uma pessoa mais forte e melhor pelo que voc fez por mim.
Com essa resoluo, Lara se levantou e foi para o banheiro de seu quarto. Um comeo limpo, pensou. O mais limpo possvel. Sem olhar para trs.
Meia hora depois, tinha tomado banho, se vestido, penteado os cabelos, colocado uma leve maquiagem para disfarar o machucado no olho, que estava bem melhor, arrumado 
o quarto e feito a cama. Caminhou pela varanda para a ala principal da casa e achou a cozinha, um cmodo enorme onde trs mulheres se ocupavam em abrir uma massa 
em uma pia de mrmore, e o cheiro de po feito na hora despertou instantaneamente seu apetite.
As mulheres - todas mestias de origem aborgine - pararam de conversar quando a viram. Lara sorriu e as cumprimentou, mas elas s ficaram olhando quando Evelyn, 
a governanta que conhecera na noite anterior, se encarregou das apresentaes.
- Parece bem melhor esta manh, Sita. Lara - ela falou. - Estas so minhas ajudantes, Brenda e Gail.
- Estamos fazendo torta para os homens - disse Brenda, uma jovem moa de cabelos encaracolados, provavelmente de vinte anos, com olhos castanhos alegres.
- Cordeiro e batatas - acrescentou Gail. Ela devia ter a mesma idade, era mais morena, tinha os cabelos tingidos de vermelho e um sorriso que demonstrava uma atitude 
de achar graa em tudo. - Falei para o Sr. Ric que ele perderia, pois partiu muito cedo.
- Ele tomou um bom caf antes de partir - afirmou Evelyn, como se Lara precisasse ter garantias disso. - E quanto  senhorita? Ainda temos massa de panqueca, ou 
posso fazer ovos. O que gostaria de comer?
- Temos vrios ovos frescos - acrescentou Brenda, vendo a hesitao de Lara.
As trs olhavam para ela, vidas por agrad-la. Lara sentiu-se realmente bem-vinda e relaxou, entregando-se  atmosfera aconchegante da cozinha.
- O que quero na verdade so duas fatias desse po fresco. O cheiro  divino.
Elas riram, convidando-a a sentar-se  grande mesa da cozinha, enquanto trabalhavam ao seu redor. Duas fatias grossas de po foram cortadas. Um pote de manteiga 
e potes de mel e gelia de frutas foram postos  disposio dela. Um bule de ch - o de sua preferncia - foi feito rapidamente.
Lara aproveitou o caf da manh e a conversa, que se baseou nas respostas s suas dvidas sobre Gundamurra. Ningum perguntou nada sobre sua vida. Sua presena parecia 
ser simplesmente aceita e as mulheres ficaram contentes em introduzi-la na comunidade.
Seus maridos trabalhavam no rancho, cuidando da manuteno e deslocando as ovelhas de pasto para pasto. Seus filhos iam para a escola ali. As lies eram supervisionadas 
pela esposa do inspetor e transmitidas por rdio, pela Escola do Ar. Apesar de o rio Paroo passar dentro da propriedade, grande parte da gua utilizada vinha de 
poos. Tambm produziam gado bovino e ovino de corte, embora a atividade principal fosse a venda de machos de ovelhas, seguida da produo de l de primeira.
- Onde est o Sr. Maguire esta manh? - ela perguntou, ansiosa para encontrar seu anfitrio novamente.
- No escritrio - respondeu Evelyn. - Antes de lev-la at l, vou mostrar a sede da fazenda. Assim voc aprende onde ficam as coisas.
- Obrigada. - Ela sorriu. - Preciso dizer que todos os quartos em que estive so muito bem cuidados, Evelyn.
A governanta irradiou prazer.
- A Sra. Maguire me treinou - falou com orgulho - e eu treino as meninas da mesma forma que aprendi.
- Bem, voc faz um trabalho excelente. - Lara quase se ofereceu para ajudar, mas achou melhor conversar com Patrick primeiro. No queria se meter sem ser chamada.
O passeio pela sede deu a ela uma noo de como era a vida ali. Havia um quarto anexo  lavanderia com vrias capas de chuva, chapus e botas, claramente a primeira 
e a ltima parada para os que trabalhavam externamente. Um banheiro completava as instalaes, com a finalidade de os empregados se limparem antes de entrarem em 
casa.
- Vocs tiveram muita chuva? - perguntou Lara.
- H muitas tempestades nessa poca do ano. Isso  bom. Precisamos de chuva.  difcil manter as coisas funcionando em tempos de seca.
Lara vira na televiso a cobertura sobre a devastao decorrente de longos perodos de seca no campo australiano. Sentiu tristeza e simpatia, mas aquelas lembranas 
foram apagadas de sua vida, tudo foi apenas momentneo. Certamente teriam mais impacto sobre ela agora que entrara em um mundo diferente.
Mas era um mundo com vrias facilidades tambm. A sala de jogos tambm era uma biblioteca e sala de msica, aberta a todos da comunidade. Paredes de prateleiras 
continham uma impressionante seleo de livros de fico e no-fico, vdeos e CDs. Um gerador fornecia eletricidade, e uma antena parablica, internet e televiso.
- O Sr. Johnny deu o sistema de som - informou Evelyn, sorrindo, antes de acrescentar: - Assim podemos ouvir suas msicas.
- Que Johnny? O amigo de Ric, dono do avio?
Evelyn parecia surpresa.
- Voc no o conhece? Johnny Ellis? Ele  um cantor country muito famoso. E chamado de Johnny Charm. E ele  charmoso!
- Ah, sim. Nunca o conheci, mas j ouvi falar.
Na realidade, Johnny Ellis era muito famoso no campo e na regio oeste do pas, e tambm nos Estados Unidos. Era realmente um rapaz muito sensual, com um charme 
muito caracterstico das pessoas do campo.
- H muito tempo, ele e o Sr. Ric estiveram em Gundamurra juntos - falou Evelyn. - Dois dos meninos do Sr. Patrick. Agora os dois so famosos. O Sr. Johnny vem muito 
aqui. Diz que somos sua inspirao.
Por isso o avio, pensou Lara. Provavelmente, Johnny Ellis tambm cometera algum crime quando era adolescente e recebera a mesma chance que Ric. Dois dos meninos 
do Sr. Patrick. Lara imaginou quantos meninos estiveram ali ao longo dos anos, quantos, se regeneraram depois da estada naquele lugar. Tambm vou me regenerar, prometeu 
para si mesma.
Outro local fascinante era a sala de costura.
- A Sra. Maguire fazia tudo aqui - explicou Evelyn. - As cortinas e colchas de patchwork. As toalhas de mesa e os guardanapos. Vestidos para as meninas. Ela adorava 
criar modelos novos.
Havia vrios tecidos empilhados, inmeras caixas contendo amostras de materiais. A sala toda foi criada de forma muito profissional, com uma mesa central para corte, 
boa iluminao, prateleiras de carretis de algodo de todas as cores, vrias tesouras.
- Alguma das filhas dela costura? - perguntou Lara.
- No muito. Somente para consertar coisas. A mais velha, a Srta. Jessie, acabou de se formar em medicina. Quer trabalhar no Servio de Medicina Real. A Srta. Emily 
 piloto de helicptero e fica mais no norte. Sempre gostou de voar. A mais nova, Srta. Megan, est na faculdade de agronomia. Creio que ela v dar continuidade 
aos negcios de Gundamurra para o Sr. Patrick.
Uma mulher... administrando um rancho to grande?
Por que no?
Lara se traa pela limitao do prprio pensamento. As filhas de Patrick eram claramente determinadas. Ela mesma nunca nutrira nenhuma ambio. A profisso de modelo 
aconteceu por acaso. Aos 17 anos, foi abordada em um show por um agente de uma agncia de modelos que rapidamente a colocou no cenrio internacional, mais para deleite 
de sua me, que incentivara a carreira com muito orgulho e entusiasmo, do que por seu prprio entusiasmo.
Quando conheceu Gary, estava cansada de tudo, das viagens constantes, das exaustivas sesses de foto, da sensao de estar sempre  mostra, das roupas que mais pareciam 
peas bizarras de exibio do que peas possveis de serem usadas na vida real. Tudo era representao e ela queria sentir seus ps mais no cho.
Casar-se e ter uma famlia parecia o passo ideal. Talvez o fato de ter trabalhado em uma fbrica de sonhos a tenha impedido de enxergar bem as coisas. O marido de 
sonhos comeou a frustrar suas iluses muito rapidamente e, ao se tornar parte da famlia dele, viu que ter filhos no era a resposta para nada.
Precisava de algo produtivo na prpria vida, no somente o reflexo ou o aprimoramento do que os outros queriam para eles mesmos. At agora, fora um cavalo de raa 
em exibio. Ric dera a ela tempo e espao para se recompor enquanto estivesse ali, e este objetivo ficou muito claro em sua mente quando Evelyn a levou ao escritrio 
de Patrick.
Aquele homem, que criou trs filhas que agora seguiam o prprio caminho, que foi figura paterna de rapazes que saram dos trilhos, fazendo com que caminhassem com 
as prprias pernas com confiana em suas habilidades para fazer algo positivo em suas vidas, recebeu Lara com um sorriso benevolente e convidou-a a se sentar. Ela 
via gentileza em seus olhos, mas sabia que havia muito mais que isso naquele homem. Ele devia ter um conhecimento muito profundo da natureza humana e de sua melhor 
forma de funcionar.
- Voc parece melhor esta manh - ele falou. Menos machucada, ela pensou, determinada a se erguer das cinzas do casamento com Gary Chappel.
- No vou desapontar Ric - ela falou, firmemente. Patrick franziu o cenho.
- Compreendo que tenha gratido por Ric, mas Lara... no ligue o que far aqui a ele. Ric no gostaria que voc medisse esse tempo pelo que ele ou outra pessoa espere 
de voc. Esse tempo  seu. Tome-o como seu e faa o que quer porque voc quer.
As palavras srias faladas lentamente fizeram com que ela percebesse que passara os ltimos anos agradando aos outros, primeiro por um forte desejo de aprovao, 
e depois porque se ela no agradasse, isso seria sinnimo de ser ferida.
Claramente, Patrick Maguire era muito diferente de seu prprio pai, que nunca a ouvira. Ela suspeita que ele aprovara a carreira e o casamento porque, de acordo 
com seu ponto de vista, mulheres foram feitas para serem belas e se casar. Ponto final. No eram feitas para pensar ou discutir com os homens que cuidavam delas.
Mesmo paralisado por um infarto e sob os cuidados de uma enfermeira em casa, sua me ainda era subserviente a ele. Sempre que Lara falava alguma coisa, ela respondia 
"Seu pai no gostaria que..."
Sempre seu pai... seu pai...
As reclamaes de Lara nunca foram ouvidas.
Observando Patrick curiosamente, ela perguntou:
-  isso que voc diz aos rapazes que vm para c? Para esquecerem as influncias que os colocaram em perigo?
- Esse  um grande salto - ele falou, demonstrando gratido. - O que Ric contou a voc sobre o tempo que passou aqui?
- No muito. Explicou o programa que voc administra como uma pena alternativa do centro de deteno. E falou com enorme respeito e confiana de voc.
Ele balanou a cabea, esboando um sorriso que "suavizava a expresso facial.
- Alguns rapazes respondem ao desafio. Outros simplesmente cumprem seu tempo. Ric, Johnny e Mitch eram como os Trs Mosqueteiros, determinados a lutar e a mudar 
de vida.
- Mitch tambm? - Lara estava surpresa e confusa. - No pensei que algum com passagem na polcia pudesse atuar como advogado.
- Mitch foi um caso especial. Ele no se defendia naquela poca. Algumas circunstncias excepcionais foram apresentadas ao juiz.
- Por meio de suas ligaes?
- Sim e no. - Ele franziu o cenho: - Devido ao programa que tenho aqui, fui ouvido, mas muita coisa dependia do que Mitch teria a dizer.
No era um jogo de poder escondido. Lara sentia alvio ao ouvir aquilo. No queria pensar que Patrick Maguire fazia os tipos de acordo que Victor e Gary fechavam, 
usando todos os meios para conseguir o que queriam. Precisava saber se Mitch Tyler era correto tambm, que no dependia da influncia dos outros.
- No se preocupe com Mitch, Lara. A justia  uma paixo para ele. Sempre foi. De uma forma ou de outra, ele vai vencer Gary Chappel.
Lara se perguntou se seus pensamentos estavam transparentes. No que isso fosse importante. Obteve a resposta.
- Alguma... notcia... esta manh? Ele sacudiu a cabea.
- Talvez  noite.
Lara esperava que Kathryn estivesse segura. Patrick olhou para ela com curiosidade.
- Sempre pergunto a todos os rapazes que vm para Gundamurra... o que eles gostariam de ter para tornar sua vida mais prazerosa aqui. - Ele fez uma pausa e perguntou. 
- E quanto a voc, Lara?
H muito tempo que no pensava em seu prprio prazer. Mesmo na noite anterior com Ric... tudo se concentrou no que ele poderia oferecer a ela, e no no que ela poderia 
oferecer a si mesma. Excetuando o fato de ter desabotoado a camisa dele, foi mais passiva do que ativa... deixando que tudo acontecesse para ela. Essa parecia ter 
sido a histria de sua vida.
- O que Ric escolheu? - ela perguntou.
- Uma cmera. -Johnny?
- Um violo.
- Mitch?
- Um tabuleiro de xadrez.
Eles sabiam o que queriam. Por que ela no? Seria sempre guiada pelos outros, sem ter a prpria direo?
- No precisa responder agora, Lara - falou Patrick gentilmente. - Pense sobre isso. Me fale quando...
- Tem algo que quero experimentar - ela interrompeu, gostando da idia que se introduziu em seus pensamentos. - Evelyn me mostrou o quarto de costura. Ela disse 
que ningum o usa mais... todos os tecidos e algodes diferentes. Talvez pudesse criar e fazer coisas... se voc no se importar. - Ela corou, quando notou que podia 
estar pisando em terreno particular.
- Minha esposa adoraria compartilhar o hobby dela com outra mulher - ele falou, encorajando-a. - Sinta-se  vontade para usar o que quiser.
- Obrigada.
- De nada. - Ele se levantou da cadeira, erguendo-se  sua formidvel altura. - Agora vamos caminhar no rancho. Voc precisa conhecer as outras mulheres...
Sim, pensou Lara, precisava ter tudo muito claras em sua mente, no apenas para o novo ambiente, mas tambm para a prpria vida. Essa era uma boa chance para retomar 
sua vida. Dependia dela fazer o melhor.


CAPTULO 9

Por trs longos meses, Ric movimentou-se a trabalho entre Los Angeles, Nova York, Londres, sempre alerta para qualquer problema. At onde sabia, no havia problemas, 
nem mesmo no escritrio de Sidnei, que Kathryn continuava gerenciando perfeitamente. Ele achava que Mitch obtivera xito ao reprimir qualquer tentativa de Gary Chappel 
de importunar Lara ou qualquer pessoa ligada a ela.
Sentia-se seguro para voltar para casa.
Tomaria todas as precaues para no ser seguido at Gundamurra. Tinha certeza de que poderia fazer isso sem colocar Lara em perigo. O desejo - a necessidade - de 
ficar com ela novamente, de garantir a si mesmo que tudo estava bem entre eles, chegou a tal ponto que mal conseguia se concentrar em outras coisas.
Nas ltimas semanas, sentia que algo estava errado. Quando configurou um site particular na Internet para que pudessem conversar em segurana absoluta, as mensagens 
de Lara eram como um dirio. Nada profundamente pessoal, mas contendo as atividades dela e escritas com muito entusiasmo. Estava satisfeito por ela no reclamar 
da vida e se comunicar to abertamente.
Mais recentemente, as mensagens foram reduzidas a pequenos relatrios. Talvez tenha sido simplesmente porque as novidades da vida no rancho do deserto tenham perdido 
o encanto. No era mais surpreendente, aventuroso ou empolgante. Detectava uma tristeza que o preocupava, fazendo com que agisse.
Gundamurra talvez no fosse o local ideal para ela. Poderia lev-la para Londres, tomar conta dela. Havia dzias de alternativas. S precisava de sua aquiescncia 
para lev-la para qualquer outro local.
A primeira etapa era encontr-la, e isso significava pegar um avio para casa. Escrevera sobre a inteno de visitar Gundamurra na noite anterior. Ela responderia 
hoje pela manh. No queria deixar seu apartamento antes de obter a resposta. Era impossvel se concentrar no trabalho no escritrio de Londres naquele dia.
Tomou o caf da manh meio a contragosto e verificou seu computador novamente.
Sim... uma mensagem.
Ric olhou para a tela, sentindo o corao apertado de dor enquanto lia e relia a mensagem de Lara, tentando desesperadamente interpretar de forma diferente o que 
ela escrevera.
 melhor para mim que no venha, Ric.
Sem explicaes.
Apenas uma linha.
Teve a sensao de que isso ocorria porque fizeram sexo e ela no queria se lembrar disso. No queria que ele pensasse que pudesse acontecer novamente. No queria 
ter que se confrontar com isso.
Erro.

Grande erro.
E ele no podia desfaz-lo.
Ento, qual seria a prxima etapa?
Ric se afastou do computador, recusando-se a acreditar que no havia futuro com Lara. A conexo entre eles foi real demais, forte demais. Devia haver uma forma de 
ultrapassar esta barreira.
Caminhou pelo apartamento, afastando a energia negativa que o pressionava, o velho derrotismo que o manteve longe dela no passado. Ele era bom para ela. Ela quis 
fazer amor com ele. E agora no podia pensar que ia experincia tenha sido ruim. Foi excelente para os dois. No podia se equivocar quanto a isso.
Talvez ela agora estivesse com vergonha de ter tido aquele desejo naquele momento. Ligando-o a Gary. Com meses de liberdade para pensar, ela podia ter desenvolvido 
um desejo de ficar livre de qualquer ligao com outro homem. Uma vida mais fcil, sem relacionamentos complicados. Os breves relatrios deviam significar que ela 
estava se despindo de qualquer possibilidade de dependncia dele, sutilmente deixando que compreendesse que tais relatrios tinham importncia cada vez menor.
Uma fase de rejeio seria razovel nessas circunstncias. Significava que devia ser mais paciente e esperar. Por outro lado, certamente ela sabia que ele no faria 
nada para feri-la. Ento, por que elimin-lo? Melhor para mim se voc no vier.
Ela se sentia mais segura longe dele? O medo de Gary ainda predominava em sua mente? Acontecera algo que ele no sabia?
Ric ligou para Mitch na Austrlia, que atendeu prontamente, para seu alvio.
- Existe alguma razo para eu no voltar para casa no momento? - ele falou sem pensar.
Mitch pesou a pergunta por alguns minutos e, em seguida, respondeu:
- No que eu saiba, desde que voc tenha cuidado.
- No houve nenhuma ameaa de Chappel? Algo que esteja preocupando Lara?
- Tudo calmo l. Certamente Victor Chappel aceita que haver um divrcio. No confio em Gary a ponto de dizer que no h chances de ele tentar interromper isso, 
ento eu enfatizo... no o leve at Lara.
- Posso usar o avio de Johnny novamente para voar at Gundamurra.
- Essa seria a melhor alternativa, se voc precisar ir, Ric.
- Voc acha que no devo? Outra longa pausa.
- No sou eu quem devo julgar. Nunca vi vocs dois juntos...
- Mas...? - Ric pressionava.
- Lara passou por muita coisa. Mais do que voc sabe, Ric, e no tenho liberdade para contar.
- Est dizendo que minha presena pode ser uma presso pouco bem-vinda?
- No sei. S sei que pelo que vejo com outras mulheres nessa situao... isso no se esquece em trs meses.  uma longa batalha para vencer.
Tempo...
Por mais que Ric quisesse passar por cima disso, no tinha como ignorar o conselho de Mitch e as palavras de Lara. Resignou-se a ter mais pacincia, desligou o telefone 
e voltou para o computador. Seus dedos digitaram a mensagem: Como quiser, Lara.
Como quiser...
Os olhos de Lara se encheram de lgrima quando leu as palavras que Ric escreveu em resposta... palavras de incentivo... to tpicas quanto tudo o que ele dera a 
ela... dera...
Se bem que o carinho que ele tinha pelas necessidades dela s pioravam seu tormento. Pedira muito a ele e agora estava pagando por isso.
Trs meses de gravidez...
Lara enterrou o rosto entre as mos, apoiadas sobre a mesa do computador.
Do lado de fora, chovia copiosamente. A chuva batia no telhado da casa da sede, abafando o som de sua aflio. No que algum fosse ouvir. Patrick reservara aquele 
horrio para que ela usasse o escritrio. Sempre ficava sozinha para escrever para Ric.
Mas como poderia continuar essa ligao com ele?
Se o beb fosse de Gary... no haveria como escapar da famlia Chappel, mesmo com um divrcio. Pensou muito na idia de fazer um aborto, mas no podia entrar por 
esse caminho, no depois de ter tido um filho natimorto. Era seu beb tambm. Toda vida inocente  preciosa.
Podia ser filho de Ric... uma esperana desesperada que pelo menos a salvaria da ligao com Gary de novo, apesar de ser extremamente injusta com Ric, pois o prenderia 
 paternidade, sem que tivesse escolhas.
Sentia muita culpa. Como Ric poderia acreditar em sua palavra novamente? Fez com que acreditasse que as plulas que tomava a protegeriam da gravidez, pressionando-o 
de forma imprudente a fazer amor. Ele no teria ido adiante, caso no houvesse essa garantia. Ela o usou para tirar Gary de sua cabea, sem se preocupar com nada 
alm de suas necessidades egostas.
A desonestidade disso a machucava. Certamente o magoaria tambm. Sequer podia encar-lo diante da possibilidade de o filho ser dele. A culpa era muito grande.
No... tinha que assumir que era de Gary... viver com as conseqncias... terminar a ligao com Ric agora. Era a nica coisa justa a fazer. Esse problema no era 
dele. Era dela, s dela.
No se foraria a escrever pequenas mensagens carinhosas para ele. Isso era desonesto tambm. Ela se recomps, leu a mensagem Como quiser, Lara e desligou o computador.
No era o que queria.
No entanto, no tinha como voltar no tempo.
Saiu do escritrio e ficou na varanda observando a chuva cair, praticamente cortinas de chuva. Os ltimos dias foram de tempestades como aquela, que enchiam o rio 
e criavam o risco de enchentes. Todos os homens trabalhavam duro, levando o rebanho para pastos mais seguros. Isso tinha que ser feito a cavalo, pois o cho ficara 
enlameado demais para o uso de veculos.
Conhecia tudo sobre a vida ali, agora. Tinha uma harmonia natural de que gostava. E as pessoas do rancho no eram pretensiosas. As coisas eram claras. No havia 
falsidades.
Ela era a nica pessoa que escondia uma coisa.
At ento, conseguira manter a gravidez em sigilo. As camisetas largas que comprara disfaravam a barriguinha, e assim como ocorreu com a gravidez anterior, no 
sentiu enjos. No vomitou. Sentia nusea quando comia algumas coisas. Como passava as tardes no quarto de costura, era fcil dar uma cochilada ali sem que ningum 
notasse o cansao que s vezes a acometia.
Talvez conseguisse mais um ms antes de a verdade ficar bvia para continuar oculta. E ento? Mais cedo ou mais tarde, teria que contar a Patrick. Ser que ele a 
deixaria ficar l? Ter o beb l?
Teria que contar a Mitch Tyler tambm?
Um beb no podia ser mantido em segredo para sempre.
Ric inevitavelmente saberia a verdade, de uma forma ou de outra... e se sentiria trado.
Ela no era boa para ele.
Nunca fora boa para ele.
E no havia chance de redeno agora.
No havia bonana depois da tempestade.
Foi para a cama com sua tristeza e ouviu a batida constante da chuva no telhado, desejando que ela levasse todos seus pensamentos. Mas continuou ouvindo...
Como quiser... como quiser... como quiser...
Em Sidnei, Gary Chappel conseguia o que queria... enganar Ric Donato, deixando que achasse que ele libertara sua esposa fugitiva. Pagou um preo exorbitante por 
isso, mas o detetive particular que contratou finalmente conseguiu recuperar as informaes que obteve com um grampo ilegal no telefone de Mitch Tyler.
Gundamurra.


CAPTULO 10

O rudo de um avio chegando acordou Lara do descanso da tarde. Ric, ela pensou apreensiva, com o corao em tumulto. Ser que mudou de idia e veio v-la, afinal 
de contas? Mas ele certamente contaria a Patrick sobre suas intenes. E no poderia chegar to rpido... poderia?
Ele estava em Londres trs noites atrs.
E escreveu "Como quiser".
A razo brigava contra a preocupao frentica. De qualquer forma, ningum poderia aterrissar. A pista de pouso no estava em boas condies, depois de toda a chuva. 
Somente um helicptero poderia aterrissar com segurana, e aquele rudo no era de helicptero. Mas o piloto voava muito baixo.
Ser que algum estava em perigo?
Ela acordou e correu.
As pessoas gritavam "Est descendo".
Fora da casa, parecia que todos estavam correndo, como se soubessem que poderia ser preciso ajudar. Todos viam o que estava acontecendo e no podiam fazer nada para 
impedir. O trem de pouso desceu no cho enlameado. O nariz do avio desceu. A cauda estremeceu.
O susto causado pelo desastre interrompeu a caminhada de Lara, que sentiu ondas de nusea. Com medo de desmaiar, conseguiu sentar-se em um dos bancos sob as pimenteiras 
e baixou a cabea entre os joelhos. Evelyn a encontrou l e a levou para a cozinha.
- No era o avio de Johnny, era? - perguntou Lara.
- No. Nem de nenhum de nossos vizinhos. Parecia um avio fretado - respondeu Evelyn bruscamente. - Provavelmente algum perdido, sem sequer ter tido o bom senso 
de se comunicar pelo rdio para saber as condies da pista.
- Talvez no pudessem. Ou estivessem com pouco combustvel para ir para outro local.
- No se preocupe com isso, isso  trabalho para os homens. - Evelyn lanou um olhar sbio para ela. - Precisa se cuidar, Srta. Lara. J vi muitas grvidas no reconhecerem 
os sinais.
Outro choque.
- Se quiser guardar para voc, tudo bem, mas  preciso que saiba que no est me enganando. Agora beba este ch e v para a cama. Esta queda do avio no  problema 
seu.
Lara sentiu-se fraca para discutir. Fez o que Evelyn falou, agradecida por poder se deitar e no ter que se envolver com o horror da pista de pouso.
Mas, no fundo, era assunto dela.
Patrick entrou no quarto dela, puxou uma cadeira para o lado da cama e olhou para ela com uma severidade que a deixou com os nervos  flor da pele. Ser que Evelyn 
contou sobre a gravidez? Deveria confessar agora? Ou ele tinha ms notcias sobre a queda da aeronave?
No podia ser Ric... podia? Por que fretaria um avio se podia usar o de Johnny? Sua cabea girava enquanto ela esperava Patrick falar.
- Lara... Seu marido estava no avio.
- Gary?
O choque da notcia deixou-a sem fala. Seu estmago queimou de medo. Gary foi atrs dela. Ele encontrou Gundamurra, alugou um avio e... ela sentia todo o corpo 
tremer diante da possibilidade de se confrontar com ele. Mas agora no tinha mais onde se esconder. Ele sabia...
- Ele no estava usando cinto - Patrick prosseguiu. - No pudemos fazer nada para salv-lo.
O que queria dizer... com no puderam fazer nada para salv-lo? Era Gary que tinha o poder, que faria tudo o que estivesse a seu alcance para ter as coisas do seu 
jeito.
- Ele morreu, Lara. 
Morreu?
Gary... morreu?
Sem poder... para fazer nada?
- Morreu antes de conseguirmos chegar at ele. O impacto da aeronave...
Morreu... Partiu...
Jamais poderia tocar nela novamente... nunca mais seria parte de sua vida diretamente... de seu beb... era como se Deus tivesse misericrdia dela, levando-o embora.
Serei uma boa me, prometeu silenciosamente, levando a mo  barriga por instinto. Se no conseguisse nada com essa segunda chance de se libertar do medo, podia 
assegurar que seu filho s conheceria o amor, independentemente de quem fosse o pai.
- O piloto e um outro homem, um detetive, esto muito machucados - falou Patrick, para que ela soubesse que Gary viera com reforos.
No havia dvidas de que se as condies estivessem favorveis, seria forada a voltar para Sidnei, seria internada em uma das clnicas dos Chappel, considerada 
mentalmente incapaz a ponto de precisar da ateno de um psiquiatra e quando soubessem que estava grvida... mas aquilo no podia acontecer agora.
- Um helicptero de resgate chegar logo para lev-los a Bourke para atendimento. O corpo de Gary tambm ser levado. Preciso perguntar... - Patrick suspirou e acrescentou 
calmamente - ...voc quer v-lo, Lara?
Ela sacudiu a cabea.
- Pensei... que voc pudesse querer se assegurar. Ela engoliu em seco e perguntou com certa dificuldade:
- Existe alguma dvida?
- Ele estava com a identidade, e o detetive confirmou. No h por que duvidar. A polcia de Bourke pode contatar o pai dele.
- Ento no preciso... v-lo.
- Somente se voc quiser.
- No. - Curta e grossa. Melhor pensar que ele tinha partido para sempre do que ter uma imagem horrenda dele em sua cabea.
Patrick balanou a cabea e se levantou.
- Vou trazer Evelyn para c. Se precisar de algo, pea a ela.
- Obrigada.
Ela fechou os olhos.
A caada terminou.
Ric no estava mais em perigo.
Estava livre.
Ela tambm tinha que liber-lo.
Levantar a possibilidade da paternidade no seria justo. Mesmo se a criana fosse dele, a responsabilidade era toda dela. Seria terrivelmente errado ter um compromisso 
para a vida inteira com ele, quando a escolha dele teria sido outra. Ele fizera tanta coisa para deix-la livre. Agora no queria se apoiar nele ainda mais... tirar 
sua liberdade...
Se esse beb era o resultado de uma mentira...
Era melhor que Ric no soubesse.
Mentira era a pior base para uma relao duradoura.
E ela queria que seu filho conhecesse apenas o amor.


CAPTULO 11

Ric foi para o escritrio de Sidnei, porque no conseguia agentar sua prpria companhia. Fazia quatro meses desde que vira Lara e a nica comunicao que recebeu 
dela ocorreu por meio de Mitch: um pedido para ele manter-se afastado. Inevitavelmente, houve um furor da mdia acerca da morte de Gary Chappel, e ela no queria 
que Ric fosse taxado como um jogador em sua vida.
Sem escndalos para as pginas de fofocas.
Ela estava legalmente separada do marido, faltava apenas o divrcio. Diferenas irreconciliveis. Nenhum outro homem envolvido.
Em resumo, Ric tinha sido efetivamente colocado de lado, sem possibilidades de volta. A viva respeitvel caminhava sozinha. No precisava ou no queria seu apoio. 
Mitch indicou um bom advogado para lidar com o testamento de Gary, e Lara conseguiu chegar a um consenso com Victor Chappel, evitando brigas. Ric suspeitava de um 
acordo: o silncio dela sobre a natureza de seu casamento, nenhuma declarao sobre o temperamento do filho dele e ela seria uma mulher rica para o resto da vida.
Sentia-se cada vez mais irritado com a hipocrisia de tudo aquilo.
Principalmente por ter sido deixado de fora da vida de Lara.
Ela no devia nada a ele, que repetiu isso inmeras vezes. Era o que realmente sentia. Mas a intimidade que compartilhara... no podia aceitar que isso tenha sido 
jogado fora como se fosse irrelevante. No tinha como esquecer a noite que passaram juntos... como parecia a coisa certa... e as palavras dela sobre a saudade que 
sentiu dele todos esses anos...
Chegou ao ponto de pensar se Lara tinha mentido para lev-lo a fazer o que ela queria: apagar Gary de sua cabea. Mas, no momento, acreditou que era mais do que 
aquilo. Um amor mtuo que fora to profundo que ele no conseguia esquecer, no podia jogar fora e seguir adiante como se no fizesse qualquer diferena em sua vida.
Fazia.
- Ric...
O tom insistente de Kathryn despertou-o de seus pensamentos. Olhou para ela com todo o ressentimento que sentia pela situao com Lara. Ela estava sentada ao outro 
lado de sua mesa. Ele notou seu olhar sobressaltado, percebeu no que se transformara e mudou a expresso.
- Desculpe, o que voc dizia? Ela zombou.
- Voc ouviu alguma coisa que falei, Ric?
- No - ele admitiu, dando de ombros para sua falta de concentrao. - Deixe seu relatrio comigo, Kathryn. Lerei mais tarde. No estou concentrado para discutir 
negcios agora.
- Certo. - Ela se levantou e entregou a ele as pginas grampeadas que estava usando como referncia. - Estarei em meu escritrio. Ligue para mim se tiver dvidas.
Tinha milhares de dvidas, mas nenhuma sobre negcios.
- Lara Chappel ligou para voc? - ele perguntou.
Ela se ajeitou, com as mos unidas em frente ao corpo, como se precisasse se guardar de um ataque. Seu olhar era cauteloso, e ela respondeu de forma lenta, medindo 
as palavras.
- Sem contato pessoal, Ric. Entretanto, ela me enviou um lindo buqu de flores quando voltou para Sidnei, com um bilhete agradecendo pela minha ajuda.
Flores para Kathryn.
Pelo menos o envolvimento dela com o resgate e suas conseqncias no foram esquecidos.
Mas saber disso foi como levar um tapa na cara. No recebeu flores. No recebeu nada.
A tenso de Ric comeou a atingir Kathryn. Ric estava prestes a se despedir, quando notou algo.
- Voc no est usando a aliana de noivado.
- Eu a devolvi a Jeremy - ela falou lentamente. Isso momentaneamente o distraiu de Lara. Ele franziu o cenho, preocupado. Ser rejeitado era horrvel.
- Sua deciso ou dele, Kathryn?
- Minha. - Ela sorriu levemente. - Ele no era o homem que pensei.
- Sinto muito. - O rapaz deve t-la magoado seriamente.
- No se preocupe. Foi um erro. Melhor descobrir antes do casamento.
- Sim - Ric concordou. - Os erros podem custar caro.
Como fazer amor com Lara.
- Na realidade, tenho sado com Mitch Tyler - Kathryn falou rapidamente.
- Voc... e Mitch? - Estava surpreso.
Ela corou e ele notou seu constrangimento por ter contado a ele, apesar de haver uma simpatia em seus olhos que fizeram com que se contorcesse por dentro. Kathryn 
e Mitch... conversando sobre Lara e ele.
- Boa sorte para vocs - ele falou bruscamente, gesticulando para que ela se retirasse.
Assim que ela fechou a porta, comeou a caminhar, incapaz de conter a energia violenta que o acometia. No se afastaria sem fazer nada, droga! Precisava agir. Queria 
respostas. O silncio de Lara estava acabando com ele. Ligou para a manso Vaucluse.
Entender como Lara podia voltar para l era outra pergunta que o massacrava.
Mas ela voltou. Trs dias depois da morte de Gary Chappel, ela foi embora de Gundamurra, levada por um helicptero pago por Victor Chappel. Um retorno muito rpido 
para a vida que deixara para trs em Sidnei. Rapidamente ela limpou a poeira do deserto dos sapatos. No esperou Ric Donato para acompanh-la a lugar algum. No 
o queria com ela, nem por amor nem por dinheiro. Por falar em amor...
- Residncia dos Chappel.
No era a voz dela. Ser que tinha mantido a governanta que Gary contratou? Toda a equipe composta de vigilantes que a deduravam? Ric no podia mais compreender 
quem era Lara.
- Aqui  Ric Donato - ele respondeu. - Gostaria de falar com Lara Chappel.
Uma pausa.
- Por favor, aguarde, Sr. Donato. Ele esperou.
E esperou.
Estava ficando cansado de esperar.
- Al, Ric. A voz dela.
Mal podia acreditar no que ouvia, pois estava convencido de que no atenderia. Ficou com a boca totalmente seca e teve que salivar um pouco antes de responder.
- Lara... - Sentiu um branco em sua mente. As palavras no saam.
Ela quebrou o silncio.
-  bom ouvir sua voz. Bom?
- Fico contente que sinta isso. - O comentrio saiu com um sarcasmo que ele logo se arrependeu. Talvez ela tenha tido razes convincentes para no contat-lo pessoalmente. 
Se estava aceitando sua ligao agora... - J faz tempo - ele rapidamente acrescentou.
- Sim. Faz tempo.
Sem desculpas. Nenhuma desculpa por seu silncio.
- Estava pensando se poderamos nos encontrar - testou Ric. - Jantar hoje  noite.
Uma longa pausa, ento ela respondeu:
- Que tal um almoo? Amanh, se for conveniente para voc.
Sem jantares. No queria se arriscar a passar uma noite com ele. No queria uma noite com ele.
- Almoo. Amanh - ele repetiu, levado por uma forte determinao. - Est bem. Onde gostaria que eu a levasse?
- No. - Fortemente decidida. - Isso  por minha conta, Ric. Vou reservar uma mesa no restaurante Osris. Fica no hotel Radisson, perto da Circular Quay, que no 
 longe de seu escritrio. Vamos nos encontrar l meio-dia e meia.
- Meio-dia e meia - ele repetia, detestando as limitaes bvias que ela colocava ao encontro. - Mal posso esperar - ele acrescentou, pensando se era um masoquista 
estpido, implorando por mais dor.
- At amanh, ento - ela falou, bruscamente, encerrando a ligao.
Ele ouviu o barulho do telefone. Parecia um tiro no corao. Mas iria ao almoo. Precisava se despedir cara a cara!
Mal Lara desligou, caiu em prantos, com lgrimas caindo dos olhos e rolando pelas bochechas. Tentou enxug-las com as mos enquanto ia para o seu quarto, pensando 
no tormento que seria encontrar Ric no dia seguinte.
Mas como podia negar isso?
Ele parecia ferido... magoado... e ela se sentia profundamente culpada pela covardia de evitar um contato com ele, fugindo de um confronto que seria muito doloroso. 
No podia contar a verdade a ele e no queria ficar em posio de mentir ainda mais. Mas um fora pelo telefone... no foi capaz de cort-lo dessa forma. Era indecente, 
depois de tudo o que fizera por ela.
Chegou ao quarto, fechou a porta e se apoiou nela, abraando forte, em uma tentativa desesperada de reduzir a dor da perda que sentira s de falar com ele. Como 
conseguiria no almoo... sentar perto dele... com as lembranas de como foi bom com ele trazidas  tona por sua presena fsica?
Ele se importava com ela.
Realmente se importava.
Ser que continuaria se importando se ela contasse a verdade?
Mesmo se o beb no fosse dele?
Sentiu um enorme desejo por Ric novamente. Mas foi precisamente essa a razo por ter entrado nesse dilema... seu egosmo. Egosmo cego e tolo. Importou-se apenas 
com o que queria.
Ento, o que diria no dia seguinte?
Oh, por falar nisso, Ric, estou grvida. No sei se o beb  seu ou de Gary. Desculpe por t-lo feito pensar que estava protegida. Estava louca por voc naquele 
momento. Mas agora esse  o resultado, que tal ficarmos juntos para o resto de nossas vidas? Me ame, ame meu filho, independentemente de quem seja o pai.
Uma grande recompensa por tudo o que ele fez!
Ela fez isso.
Era errado sequer pensar na possibilidade de pedir a Ric para compartilhar isso com ela, assumir o fardo de uma paternidade quando ele achava que no havia chance 
de isso acontecer.
No.
De alguma forma tinha que faz-lo acreditar que queria uma vida independente. Que tinha planos que no o incluam. Tinha que lhe agradecer por libert-la para que 
atingisse os prprios objetivos, e interromper qualquer ligao futura com ele.
Mas no seria um final doloroso.
Tinha esperana de que ele compreendesse.
Apesar de seu corao sangrar por todas as coisas que permaneceriam escondidas.
Passou a mo na barriga. O desastre do avio e a morte de Gary a preocuparam. Voltou para Sidnei assim que sentiu-se bem para viajar, ansiosa para ir ao mdico e 
ver se o beb estava bem. At agora, tudo estava bem.
Precisava desse beb para viver.
Algo bom em que se apoiar.
Amanh diria adeus a Ric.
E o deixaria.


CAPTULO 12

Ric chegou ao Radisson Hotel ao meio-dia e quinze. A entrada do restaurante Osris era no fundo de uma rea do saguo. Sentou-se em uma poltrona, de onde via toda, 
a movimentao de quem entrava e saa.
Txis paravam na porta deixando e levando passageiros. Nenhum deles era Lara. Ficava tenso todas as vezes que via um carro com motorista, ao mesmo tempo desapontava-se 
ao ver o estranho que saa. O tempo passava... meio-dia e meia, meio-dia e trinta e cinco, meio-dia e quarenta...
No recebeu nenhuma mensagem explicando o atraso. Depois de quatro meses, o mnimo que ela podia fazer era ser pontual, ou pelo menos explicar a razo do atraso. 
Todo mundo tem celular nos dias de hoje. No havia desculpa para deix-lo esperando.
Teria sido deliberado?
Uma mensagem subentendida, como voc no  importante para mim.
Ric pensou em algo ainda mais horrvel. Entrou no restaurante para saber se havia reserva no nome deles. Caso contrrio, teria sido dispensado por uma das formas 
mais desprezveis. Esperava uma certa civilidade de Lara e nem isso ela foi capaz de conceder.
- Uma mesa reservada para Chappel? - perguntou Ric para o maitre.
- Sr. Donato? - perguntou o rapaz, como se tivesse uma mensagem para entregar.
Ric fervilhou de pensar que Lara pudesse ter pago pelo almoo dele sem ter aparecido.
- Sim - ele retrucou.
- Por aqui, senhor.
Ele no deixou alternativas a Ric, seno segui-lo. Caminharam para o fundo do restaurante. Ric olhou para as mesas dispostas de forma espaosa, sem reconhecer nenhuma 
das pessoas. Apertou as mandbulas ao olhar para uma mesa vazia atrs de uma pilastra que ficava ao lado de uma janela. No permaneceria ali para comer sozinho.
Mas a mesa no estava vazia.
Lara estava sentada em uma cadeira escondida da viso geral pela pilastra, olhando pela janela para a vista da cidade. Ric mal teve tempo de se recompor do choque 
de v-la quando o maitre anunciou sua chegada, chamando a ateno dela.
Vira vrias fotos de Lara desde que voltara para Sidnei, mas nenhuma a tinha mostrado to linda, sem o rosto machucado. Os olhos estavam assombrosamente azuis. A 
pele brilhava. Os cabelos reluzentes, presos em um coque sofisticado, acentuavam de alguma forma a perfeio delicada de seus traos e a graa de seu pescoo.
- Ric... - Ela sorriu para ele, se levantou e estendeu a mo.
No se movimentou para dar um beijo, deu somente um sorriso corts, mais nervoso do que caloroso, e a mo que ele apertou enquanto se forava a falar o nome dela.
- Lara...
Ele no conseguiu sorrir. Nunca sentiu nada parecido na vida. Ela estava de preto. A viva de luto? Um terno preto, indubitavelmente de alta costura, com o palet 
marcando bem os seios, caa at a cintura e flutuava ao redor de seus quadris.
Soltou a mo dela depois de um leve aperto e ela prontamente retomou seu lugar. O maitre puxou a cadeira oposta e Ric sentou-se tambm, enquanto observava as trs 
prolas que Lara usava no pescoo, perfeitamente polidas. Provavelmente valiam uma fortuna. Herana de Gary.
Bem, o que ele esperava? Ric zombava ferozmente de si mesmo. Ela no iria naquele restaurante sofisticado usando jeans e camiseta. E ele estava to sofisticado quanto 
ela, at mesmo usando sapatos Gucci. S no gostava de v-la vestindo o que comprara com o dinheiro de Gary, pois mantinha a imagem de um casamento de alto nvel 
quando os dois sabiam o que de fato isso escondia.
- Estava esperando no saguo - ele falou, olhando nos olhos dela, ainda ressentido pela futilidade que ela demonstrava.
- Desculpe. Eu combinei no restaurante, Ric. Cheguei mais cedo e entrei direto.
- Muito cedo - ele no conseguiu deixar de comentar. Ela devia estar ali h uns quarenta e cinco minutos.
Ela enrubesceu e tentou no dar importncia ao fato.
- No quis me atrasar. Do jeito que o trnsito anda...
- Erro meu - ele cedeu rapidamente, tentando relaxar enquanto o garom oferecia o menu e carta de vinhos. - J viu? - ele perguntou a Lara.
Ela balanou a cabea. Ric escolheu rapidamente, sem se importar com o que comeria ou beberia, apenas desejando que o garom sasse e os deixasse a ss. Lara acrescentou 
seu pedido e a seleo dos pratos estava concluda. Ele tentou entender a situao. Ela chegou ainda mais cedo do que ele. O que isso significava? Ansiedade para 
no perder nenhum minuto com ele ou chegar antes para se estabelecer antes de confront-lo?
Ela parecia calma, composta, apesar de ter um toque de rubor nas faces, mas seus olhos o fitavam, captando cada detalhe de sua aparncia, como se quisesse fazer 
uma correspondncia com a lembrana que tinha dele. Uma lembrana de uma noite que ela no fez questo de retomar antes de ele tomar a iniciativa. Ento, no que 
pensava?
- Voc parece bem, Lara - ele falou, o que era verdade.
- Venho cuidando de mim - ela respondeu, demonstrando uma certa independncia. No precisava mais dele.
- Bom! - ele falou em tom de aprovao, e ento perguntou abruptamente: - Voc no se incomoda em morar na manso Vaucluse? As memrias ruins no voltam  tona?
Novamente ela corou, desviando o olhar para os talheres na mesa. Ela os movimentou de forma agitada, pegando um copo de gua.
- A casa  grande - falou. - E todas as coisas de Gary foram retiradas. Moro apenas em uma parte da casa.
Ela olhou para Ric com determinao.
- Vou coloc-la  venda logo. At que seja vendida, precisa ser mantida.
- Claro - ele murmurou, apesar de saber que isso podia ser feito por terceiros. No era necessrio morar no local. Seus apartamentos sempre eram mantidos limpos 
enquanto ele ficava fora.
Ela bebeu a gua.
- Mesma governanta? -- ele perguntou.
- Sim. - Ela olhou para ele de forma desafiadora. - Consegui contrat-la novamente. Pediu demisso no dia seguinte  minha partida. Eu disse a Mitch Tyler que ela 
poderia testemunhar contra Gary e ela o fez. E uma boa pessoa e precisa do emprego.
Mas tambm lembra o passado, pensou Ric. Era isso que Lara queria que as pessoas compreendessem de seu casamento? Por qu?
- Voc j sabe para onde vai quando a casa for vendida?
- Ainda no tive tempo de procurar.
- Mas voc j pensou sobre isso? - ele perguntou.
- Sim. - Ela suspirou. - Algum lugar menor. - Uma tentativa de sorriso. - Um local que possa considerar meu.
Uma outra indicao de independncia.
- Em Sidnei?
Ela balanou a cabea e bebeu mais gua.
- Algum lugar especfico?
- Quero ficar razoavelmente perto da minha me. 
Da me? Que nunca ouvira seus problemas? Que ficou do lado de Gary?
Ric sentiu os dentes cerrarem e foi necessria muita fora de vontade para desfazer isso. Lara estava optando por ficar perto das pessoas que no levantaram um dedo 
para ajud-la, enquanto ele foi mantido fora do permetro, mal notado por ela. Isso no fazia sentido.
A menos que ele fosse a lembrana mais forte de tudo o que vivera. A pessoa mais prxima a isso devido a uma intimidade implorada por ela.
Mas e quanto aos sentimentos que afloraram naquela noite?
Ser que agora estava constrangida por eles?
Desejando no ter se entregado tanto a ele?
- Est tudo bem com voc, Ric? - ela perguntou, assumindo uma expresso de grande interesse.
- Com relao aos negcios, sim. J no nvel pessoal... - Ele a fitava interrogativo, questionador - ... sinto sua falta, Lara.
As palavras que escolheu foram deliberadas, e ela se esquivou, desviando o olhar para o copo e rodando-o sem parar. Ele no sentia a menor simpatia pela sua tenso. 
Se mentira para ele sobre saudades em todos esses anos, merecia ser sufocada por sua mentira.
- Mitch Tyler me garantiu que Gary no prejudicou voc, nem pessoal nem profissionalmente - ela falou.
- No. Creio que voc pode dizer que eu o prejudiquei.
Ela ficou confusa e levantou o olhar.
- Como?
- Tirei voc dele - ele lembrou, voltando com a ironia.
- Fui de bom grado. J tinha tentado...
- Sim, eu sei. Mas depois fui eu tambm que acabei fazendo com que ele fosse para Gundamurra, o que foi fatal para ele.
- Voc? No entendo.
Ele deu de ombros. 
- Creio que Mitch no tenha contado a voc que o detetive de Gary grampeou o telefone dele.
Ela balanou a cabea.
- Depois que voc me enviou a mensagem pedindo para eu no ir, liguei para Mitch para perguntar se ele sabia a razo para eu no ir a Gundamurra, e foi assim que 
seu marido descobriu onde voc estava, Lara.
- Oh!
- Apesar de eu ousar dizer que tudo acabou terminando bem - zombou Ric. - Voc no apenas est totalmente livre dele agora, como tambm virou uma viva rica.
Ela se ofendeu.
- S aceitarei o que for preciso para... para... Ric fez um gesto de rejeio.
- Voc tem direito, Lara. Deus sabe o que voc passou como mulher dele.
- No se trata de dinheiro - ela declarou com o orgulho ferido.
- No - ele concordou. - Voc j deixou claro que se trata de independncia.
- E de definir as coisas corretamente - ela acrescentou rapidamente.
- Oh? - Ele ergueu as sobrancelhas. -  para isso que estamos almoando? Para voc definir as coisas comigo?
Ela olhou para ele, atravs dele, e os olhos perderam o foco. Finalmente, ela abaixou o olhar, balanou a cabea e murmurou:
- No sei como fazer isso, Ric.
O garom chegou com a garrafa do vinho Chadornnay que Ric escolhera. Cumpriu o ritual de mostrar o rtulo, retirar a rolha e servir uma prova. Quando o garom foi 
servir Lara, ela cobriu a taa com a mo.
- Para mim, no, obrigada. Vou beber somente gua.
Quer manter a cabea no lugar, pensou Ric, enquanto eu perco a minha.
O garom encheu o copo de Ric e saiu.
Ric no tocou no vinho. Fez o pedido automaticamente - um acompanhamento perfeito para os frutos do mar que escolheram. Se soubesse que beberia sozinho, nem teria 
lido a carta de vinhos. A desfeita de Lara soou como outro ponto de separao. Menos uma coisa compartilhada.
Ser que ele estava exagerando... interpretando isso tudo erradamente?
Se ele tentasse ser charmoso, em vez de desafiador, faria diferena?
Ela veio ao almoo.
Ele tentou deixar a raiva e a frustrao de lado e passou a agir com a cabea dela.
- Desculpe. - Ele esboou um sorriso. - No estou tornando as coisas fceis, no ?
Ela suspirou. Seus olhos demonstravam um cansao que no deixava esperana para ele.
- No seria fcil, Ric.
Indubitavelmente essa foi a razo para ela ter se esquivado - adiado - de qualquer contato pessoal com ele. Ric decidiu ser direto.
- Por qu, Lara? Foi por causa daquela noite? Novamente ela enrubesceu e no conseguiu fit-lo, olhando para baixo.
- Para mim, a lembrana  boa - ele afirmou. Ela fechou os olhos.
No respondeu.
A lembrana estava muito viva em sua mente. Ele agiu exatamente da forma que ela queria e desejava. E no fim... a sensao de amar e ser amada. Sem arrependimentos. 
Sem pensar em culpas. Ela se aninhou em seus braos e adormeceu.
- Pensei que tinha sido bom para voc tambm - ele murmurou.
Ela balanou a cabea.
- Foi errado - ela retrucou. - Eu no devia ter pedido. No devia ter pressionado.
O tom dela era de dor, cheio de arrependimento.
Culpa... vergonha... humilhao... todos esses sentimentos negativos estariam ligados a ele agora, dificultando o fato de olhar em seus olhos?
- Para mim, no pareceu errado, Lara - ele garantiu suavemente. - No desconsidera voc pelo que quis.  natural usar o sexo como uma afirmao da vida.
- Por favor... - ela ergueu os olhos angustiados. - Prefiro que voc no toque nesse assunto, Ric.
Lara acuava-o, deixava-o sem espao para se movimentar. Ele franziu o cenho, certo de que aquele era o principal problema que havia entre os dois.
- Quer que eu me sente aqui e finja que nada aconteceu?
- Tambm no posso fazer isso - ela falou, jogando para o alto a compostura com a qual o cumprimentara. - Desculpe. Voc foi muito bom para mim, mas... - os olhos 
dela imploravam. - Quero fechar essa porta, Ric.
Acabar.
Ele fizera amor com ela porque ela queria apagar Gary.
Agora no precisava mais dele. Gary estava morto.
Mas Ric Donato ainda estava vivo e empolgado... empolgado contra o desejo dela de limp-lo de sua vida. Em vo... se tivesse feito sua cabea.
- Acho que voc deve ser mais clara comigo, Lara. Voc quer fechar a porta somente do que compartilhamos no passado? Ou tambm quer fechar a porta para qualquer 
futuro que possamos ter?
Ela respirou fundo. Parecia estar passando mal, mas falou:
- No h futuro para ns, Ric.
Foi uma negao curta e inequvoca da ligao que ele sentia com ela, uma ligao que durou dezoito anos para ele e provavelmente o assombraria pelo resto da vida.
Ele no pde deixar de perguntar.
- Tem certeza?
- Sim, tenho certeza.
Sem hesitao. No havia espao para dvidas.
Ele devia se mover. Partir. Mas no conseguiu. Era como se toda a energia de seu corpo tivesse sido sugada. Olhou para o copo de vinho. Um copo de veneno, pensou.
- Desculpe - ela murmurou. - Devo tanto a voc e no tenho como pagar...
Ele a fitou de forma rspida.
- No h dvidas. Tudo o que fiz... foi o que eu quis fazer.
Ela sentia as faces queimarem.
- Tenho todos os recibos das roupas que voc comprou para mim. Fiz um cheque para voc. Pelo menos deixe-me pagar isso, Ric.
Lara fez meno de pegar a bolsa. Ele explodiu.
- No!
Ela desistiu. Ric olhou de forma ameaadora para o rosto constrangido dela.
- No se trata de dinheiro - ele se irritou, tentando conter a emoo que emergia de dentro dele. - Nunca foi. Apesar de eu ter tentado estreitar os laos que existiam 
entre ns roubando o Porsche. Aquele era um rapaz cego achando que no era bom o bastante para voc. No sei qual  sua medida, Lara, mas no aceitarei nenhum pagamento.
Ele tinha a implacvel satisfao de v-la arruinada.
- Aproveite sua liberdade - ele falou. E saiu.


CAPTULO 13
Ric no voltou para o escritrio. No estava com humor para encontrar Kathryn nem mais ningum. Foi para seu apartamento em Woolloomooloo, onde ningum o importunaria. 
A vista de sua janela fez com que lembrasse da vista que Lara tinha da manso Vaucluse. Ele entrou na vida dela sem pedir licena naquela manh e sem ser convidado, 
pedindo a verdade. Nada foi escondido.
Essa era a razo para ela no morar com ele agora?
Mais fcil de esconder?
Ric ainda no conseguia entender. Dizia a si mesmo que isso tudo era em vo. Ela falou categoricamente que no havia futuro para os dois. No havia alternativa, 
a no ser deix-la partir. E aquele insulto final, desejando pag-lo... no havia por que querer entend-la se ela no o compreendia.
A ligao que sentiu devia ser fantasia.
Hora de fechar a porta.
Ir embora de Sidnei, se afastar de Lara.
Nova York. As coisas sempre aconteciam em Nova York. Uma cidade em que qualquer coisa pode acontecer. Seria fcil voltar  vida social l, talvez at conhecer uma 
mulher para esquecer Lara.
O telefone tocou e ele atendeu automaticamente, esquecendo que no queria falar com ningum. Tarde de-1 mais. A voz de Johnny Ellis ecoou em seu ouvido.
- Oi, cara. Que bom encontr-lo em algum lugar. Estou no centro de Sidnei com uma noite livre antes de ir para Gundamurra. Alguma chance de voc vir jantar comigo 
e Mitch?
Ric hesitou, pois detestava a idia de falar de Lara, assunto que inevitavelmente viria  tona na conversa. Ele pediu o avio de Johnny emprestado. Mitch conhecia 
todo o caso, apesar de ser confidencial. Mas Ric no era parte disso.
Por outro lado, no abandonaria os amigos antigos por causa dela! Mitch e Johnny provaram ser verdadeiros com o passar dos anos. Sempre pde contar com eles. E os 
trs no se encontravam com muita freqncia. Seria estupidez desperdiar essa chance, deixando que Lara atrapalhasse. Mitch e Johnny ainda seriam parte de seu futuro.
- Claro, Johnny - ele respondeu firmemente. - Seria timo. Voc j tem reserva em algum restaurante?
- Naquele italiano que voc gosta, perto do seu apartamento, o Otto. Oito horas?
- Certo!
Os rapazes de Gundamurra...
Para Johnny ele estava em casa, o nico local do qual realmente se sentia parte. Como Ric, ele no tinha famlia, e os dois sempre iam para Gundamurra no Natal, 
sendo que Johnny ia mais vezes durante o ano. Eles se sentiam parte da famlia Maguire, eram bem-vindos sempre que quisessem voltar.
Ric desejava que no tivesse levado Lara para l, apesar de Gundamurra parecer ter sido o local correto na hora exata. Na realidade, o nico local em que sua segurana 
estaria garantida. Mesmo se o avio de Gary no tivesse cado, Patrick no permitiria que levassem Lara. Mas agora tudo isso era teoria. O problema era que Ric sabia 
que jamais conseguiria voltar l sem pensar nela.
Supere isso, ele se ordenava.
Fizera a coisa certa ao salv-la do marido violento. O que aconteceu depois... bem, s no correu como ele esperava. Patrick o avisou sobre isso, desde o comeo. 
Ento, deixe o passado para trs. Voc  um sobrevivente, lembra?
Quando encontrou Johnny e Mitch no Otto  noite, Ric conseguiu colocar Lara em um compartimento fechado de sua cabea. Terminou tendo que falar nela, como esperado, 
mas conseguiu conter a emoo. Deu um apanhado geral da situao, declarando-a terminada. Lara podia retomar sua vida. Ele podia retomar a dele. Na realidade, iria 
para Nova York no fim de semana.
Mitch provou ser um verdadeiro companheiro ao pedir que Johnny contasse para eles histrias do mundo da msica. O resto da noite foi preenchido por novidades de 
sua mais recente viagem aos Estados Unidos. Johnny tinha a capacidade de fazer piada de tudo. Ric at se pegou rindo. Sem dvida, as vrias garrafas de vinho ajudaram 
a relaxar. Alm disso, a companhia era tima.
No dia seguinte, ele trabalhou com Kathryn, resolvendo assuntos administrativos do escritrio de Sidnei. Iria para Nova York no dia seguinte  tarde, e ficaria l 
por alguns meses. Pensou em como andaria a relao de Mitch com Kathryn, mas no perguntou. Assunto pessoal era assunto pessoal. Particularmente, desejava o melhor 
para os dois. Eram boas pessoas.
Mal ele abriu a porta do apartamento, o telefone comeou a tocar. Preocupado com quem poderia ser - ao olhar para o relgio, viu que eram seis e quinze -, fechou 
a porta e correu at o telefone da cozinha.
- Ric Donato - ele atendeu, imaginando que Kathryn esquecera de alguma coisa, mais assuntos a serem resolvidos de manh, antes da partida.
- Aqui  Johnny, Ric. Ele estava surpreso.
- Voc no ia para Gundamurra hoje?
- Sim, eu vim  tarde. Sentei para conversar com Evelyn enquanto ela me servia bolo de cenoura fresco com sorvete.
Ric sorriu, imaginando a cena.
- Certamente voc apreciou muito as boas-vindas.
- Comi trs grandes fatias. Mas o assunto da ligao no  esse, Ric.
- O que aconteceu? Algum problema em Gundamurra? Patrick no est bem?
- Bem, eu posso estar pisando em terreno duvidoso, mas nem voc nem Mitch mencionaram isso, e Patrick falou que no sabia...
- Sabia o qu? - Ric cortou impacientemente, tenso com a possibilidade de ser algo sobre Lara.
- Desculpe se estou sendo invasivo...
- V direto ao ponto, Johnny. Ele respirou fundo.
- O ponto ... Eu lembro que Lara Seymour significava muito para voc, Ric, e imagino que com tudo o que fez para ela, salvando-a do casamento, trazendo-a aqui... 
bem, acho que voc deve saber que pode haver uma boa razo para ela no t-lo procurado para vir busc-la depois que o rapaz morreu.
- Uma razo... - Ric repetia, lutando contra uma falsa esperana.
- No fazia sentido para mim o fato de ela lhe dar um fora - ele observou. - Mas eu estava conversando com Evelyn...
Ric cerrou os dentes. Claro, eles conversavam sobre Ric e Lara, o grande drama do rancho no ano. Podia v-los na cozinha, comendo bolo de cenoura, fofocando entre 
as mordidas...
- Voc sabe que Evelyn no perde nada, Ric - prosseguiu Johnny. - E ela me falou com todas as letras que Lara estava grvida.
Grvida!
- Deve ter acontecido logo que voc a tirou da casa do marido, pois Evelyn falou que ela no estava de muito tempo. Sequer aparecia, pelo menos no nitidamente, 
quando ela partiu de Gundamurra.
Trs meses... quatro meses agora... sentada no restaurante, sem querer que ele a visse chegar... o palet largo... sem beber vinho...
- Evelyn falou que o desastre do avio deixou Lara muito mal. Parecia que ia desmaiar. Teve que ir para a cama. Evelyn estava preocupada com o beb, assim como Lara, 
pois o ltimo beb dela morreu logo ao nascer.
ltimo beb?
A cabea de Ric girava. No sabia que Lara tinha dado  luz um beb natimorto. Mas quando eles tiveram a chance de conversar? No curto tempo que passaram juntos, 
ela no quis falar sobre o casamento. Os e-mails subseqentes continham apenas notcias do que fazia em Gundamurra. E a carinhosa troca de e-mails dos dois comeou 
a diminuir...
Quando?
A constatao o atingiu como um soco.
Quando ela notou que podia estar grvida!
- Ric... voc est a? - Johnny estava preocupado.
- Sim, ainda estou aqui, Johnny.
- Isso  novidade para voc?
- Sim.
- Certo. Evelyn acha que Lara foi para Sidnei o quanto antes, pois queria uma avaliao do beb. O que faz sentido para mim.
E para Ric.
Um sentido devastador.
- Ela pode estar livre do cara - prosseguiu Johnny. - Mas est carregando o beb dele, Ric. Isso a coloca em um dilema, no?
-  o que voc est dizendo - respondeu Ric implacavelmente.
Ser que o beb era de Gary? Ela sabia com certeza?
- Pensei que voc devesse saber de tudo. Mitch disse... bem, no importa.
Eles dois dividiram um txi na noite anterior. Certamente compartilharam mais do que uma carona.
- Espero no ter pisado onde no devia - acrescentou Johnny, em tom de desculpa. - Mas se fosse comigo... gostaria de saber tudo a respeito.
Ric no escondia nada dos amigos. Eles se importavam com ele. Pensou que no tinha demonstrado o quanto estava ferido, mas...
- Tudo bem, Johnny. Voc tem razo.  melhor saber. Obrigado.
- Foi difcil ligar para voc. Se cuide, Ric.
- Pode deixar - ele respondeu automaticamente.
Mas as palavras dele agora tinham um ngulo diferente. Ric sabia que no iria para Nova York no dia seguinte.
Lara estava grvida. Ele no usou proteo naquela noite. Ela podia ter mentido quanto ao uso de plulas. O filho podia ser tanto de Gary quanto dele. De qualquer 
forma, Ric no iria a lugar algum sem resolver isso antes.


CAPTULO 14

Lara transformou a ala das babs, perto do quarto da criana, em uma sala de costura. Na mesa de corte estavam os tecidos que escolheu para fazer o trabalho em patchwork, 
peas belas e em cores variadas. Uma necessidade desesperadora de espantar Ric Donato de sua mente a estimulou a passar o dia todo organizando e reorganizando os 
retalhos, tentando ver qual combinao traria o resultado mais bonito. Lara queria que a colcha de seu beb ficasse perfeita.
A ultra-sonografia mostrou que a gravidez estava indo bem. Era maravilhoso ver o beb na tela, ser capaz de verificar que ele crescia bem. Lara no quis saber se 
era menino ou menina. Se algo desse errado, como da ltima vez, sabia que a certeza de ser um filho ou uma filha tornaria as coisas piores. Melhor esperar. Seria 
uma surpresa.
Encontrar Ric novamente fomentou um desejo de que o filho fosse dele. Foi to difcil sentar em frente a ele no restaurante e no contar, sentindo a fora da raiva 
dele e de sua dor, tendo que observ-lo sair de sua vida.
Ficou arruinada por dentro, agonizando sem saber se tinha tomado a deciso correta. De qualquer forma, ele se sentiu trado. Mas pelo menos dessa maneira o envolvimento 
que tinha com ela era algo que poderia superar, livre da responsabilidade pelo que ela fizera.
Ao mesmo tempo, ela esperava que o beb parecesse com ele, para que tivesse certeza. Mas se no parecesse... bem, era seu filho da mesma forma. E teria que seguir 
sua vida... sem Ric.
Ao olhar para o tecido na mesa naquela manh, Lara decidiu que no podia melhor-lo. A borda vermelha era adequada tambm. Tudo muito bonito. Pegou a primeira linha 
de retalhos e se acomodou em frente  mquina de costura, comprada quando voltou para Sidnei. Durante o tempo em que passou em Gundamurra, sentiu um enorme prazer 
em criar modelos e costurar. Queria continuar com isso, talvez abrir um negcio futuramente.
O barulho da mquina bloqueou os sons vindos do resto da casa. Aquele quarto era como um pequeno mundo particular, o qual levaria com ela para onde fosse aps a 
venda da casa. Ric fez mal juzo por ela ter ficado ali, mas o beb era a principal preocupao. Seria melhor se movimentar lentamente, sem se meter em um monte 
de decises que repercutiriam muito na famlia Chappel.
Gary partira. Ele no podia feri-la mais. Por mais estranho que parecesse, lamentava por Victor, que perdeu o filho que preparou para assumir seus negcios. Ele 
estabeleceu um acordo com ela para que no arranhasse a imagem pblica de Gary. Sem desejar fornecer detalhes de seu casamento para a imprensa, Lara aceitou o plano 
de Victor sem problemas, contra os argumentos de seu advogado, que insistiu em seu direito por uma fatia maior da herana.
O dinheiro a mais no era importante.
A liberdade sem volta era.
Depois que tudo ficasse legalmente estabelecido, ela se sentiria livre para caminhar sozinha, financeiramente independente, se fosse cuidadosa, para o resto da vida. 
Ric podia ser contra o fato de ela aceitar o dinheiro, mas o aceitou pelo filho. Uma segurana, caso no obtivesse sucesso em seus negcios. Alm disso, se Gary 
fosse o pai, ela certamente tinha este direito.
Depois de terminar de costurar a primeira linha de retalhos, voltou  mesa para pegar a linha seguinte. Sua ateno foi distrada pela voz alta da Sra. Keith, claramente 
falando com algum no corredor que passou para aquela parte da casa.
- Garanto que isso  completamente desnecessrio. - Ela parecia irritada.
Lara se preocupou, desejando saber quem estava fazendo a governanta sair da linha. Seria o corretor que venderia a casa, insistindo em verificar alguma coisa?
A voz determinada que respondeu soou como uma chicotada na espinha de Lara e acelerou sua pulsao.
- No vou ficar em um quarto isolado enquanto Lara foge por uma porta dos fundos.
Ric!
- A Sra. Chappel  uma dama.
- Uma dama mentirosa - ele completou. - E se a senhora estiver me levando para o local errado, Sra. Keith...

- No me ameace, Sr. Donato! Ou  Sra. Chappel. Ligarei para a polcia. S no liguei at agora porque o senhor a ajudou antes.
- Oh, no creio que Lara v querer um escndalo. Na verdade, tenho certeza disso.
- Bem, veremos o que a Sra. Chappel tem a dizer. A batida na porta tirou Lara do estado de imobilizao. O corao batia rpido. Respirou fundo. De repente, entendeu 
que Ric pensava que estava mentindo para ele.
Sobre o qu?
Essa era a grande questo!
No teve tempo de dizer "Entre".
A porta foi aberta repentinamente.
- Sr. Donato...
O grito chocado da Sra. Keith foi totalmente ignorado por Ric. Ele entrou no quarto, olhando ferozmente para Lara, que estava do outro lado da mesa. O quarto parecia 
inundado pela raiva dele, mas logo Ric manteve o controle. Ela podia ver seu esforo para isso, no rosto retesado, nos olhos brilhando, inegveis evidncias de sua 
fora de vontade.
Ele no bateria nela.
Ric, no.
Nunca.
Mas Lara sabia que ele estava muito ferido, e ela foi a causa. Apesar de no ter sido sua inteno. E de alguma forma tinha que melhorar as coisas para ele.
- Tudo bem, Sra. Keith - ela garantiu para a governanta, tentando ao mximo demonstrar confiana em sua voz. - Pode deixar o Sr. Donato aqui.
- Ele no esperaria, Sra. Chappel. Lara balanou a cabea para ela.
- No se preocupe com isso. Por favor, deixe-nos a ss agora.
Com um suspiro de desgosto, a governanta fechou a porta e saiu. Ric ficou em frente  porta, impedindo deliberadamente a passagem. Seus olhos percorriam a roupa 
que ela vestia, uma mudana dramtica com relao  escolha que fizera para ir ao encontro no restaurante.
Lara ficou nervosa quando ele parou o olhar em sua barriga. A cala jeans para gestantes estava confortvel em sua cintura e a camisa larga de flanela escondia a 
barriga, ainda pequena, certamente sem mostrar uma gravidez visvel. Ele no podia ver. No tinha como saber, ela garantiu a si mesma.
Provavelmente ele estava pensando que aquele era o tipo de roupa que ela vestia em Gundamurra. No havia qualquer necessidade de manter uma imagem de sofisticao 
no rancho do deserto e Lara no sentiu qualquer necessidade de mudar isso agora. No ia voltar  vida de socialite. A roupa que comprara para o encontro no restaurante 
era como uma armadura, escondendo o quanto se sentia vulnervel por dentro. Seria melhor Ric pensar que no precisava dele para nada. Apesar de que fosse uma mentira.
Mas como ele sabia que ela mentia para ele? O olhar dele encontrou o dela, ainda com um forte brilho de deboche.
- Voc contou a Victor Chappel que est carregando o neto dele?
As palavras a atingiram como tiros, deixando-a sem defesa. Ela no respondeu. No podia. O choque foi muito grande. Ficou olhando para ele atordoada, tentando absorver 
o fato de que sua tentativa de esconder a verdade de Ric agora era causa perdida. Ele sabia. No agiria assim se fosse somente uma suspeita.
-  por isso que ainda mora aqui, Lara... fazendo o papel de viva consternada... firmando acordos com seu sogro... mantendo-o contente para que seu filho herde 
tudo?
- No! - ela gritou, estarrecida por ele pensar que ela pudesse ser to calculista e mercenria.
- Ento por que esconder a gravidez de mim?
Ela podia ver o quanto seus olhos a condenavam. Mas o resto no era verdade.
- No contei a Victor. No contei a ningum. Somente a meu mdico, que tem um consultrio particular e no  ligado s clnicas Chappel.
- Ento... voc est preocupada que a criana parea comigo - ele replicou. - Isso ofenderia o cl, certo?
Lara sentiu-se definhar diante da exploso dele. Teve que engolir em seco.
- No ia solicitar a paternidade de Gary - ela declarou com a voz trmula, e Ric se precipitou.
- S deixaria que as pessoas conclussem isso... se no houver qualquer fofoca a meu respeito.
Ela levantou as mos em protesto.
- Gary pode ser o pai, Ric. Na noite anterior ao dia em que voc veio me salvar... - Ela parou, corando de vergonha e culpa, vendo nos olhos de Ric a constatao 
de que ela o usara para apagar Gary de sua mente.
- Voc no queria que Gary vencesse - ele falou, ao lembrar e repetir as palavras dela, condenando-a ainda mais.
Mas aquele tempo com Ric transformou-se em algo muito maior. Ela precisava dizer isso a ele desesperada-mente, fazer com que acreditasse nela. Mas as palavras ficaram 
presas na garganta, reprimidas por suas aes.
- Ento qual era o plano, Lara? - ele perguntou, em tom de deboche. - Confundir o fato de voc ter engravidado de Gary antes de se entregar a mim? Dizer que o beb 
era meu, e no dele? - Ele gesticulava, desgostoso, e movia-se para a extremidade da mesa, pressionando as mos sobre ela enquanto se inclinava desafiador. - Voc 
realmente pensou que poderia sair dessa sem fazer um teste de DNA para provar a paternidade?
- Eu no tinha um plano - ela gritou. - Estava apenas... reagindo.
- Mentindo para mim sobre o uso de preservativo - ele cutucou.
- No queria que voc parasse.
- E voc no se importou com os meus direitos, se importou? Estava ali s para ser usado.
- No!
- E agora que Gary morreu, ele no pode usar o beb para ficar na sua vida; por isso, no faz diferena para voc saber quem  o pai. - Ele olhava para ela furiosamente. 
- Faz, Lara? Voc pode fazer o que quiser com a criana, sem qualquer interferncia.
Ela fechou os olhos, incapaz de suportar a dor terrvel que provocara nele com sua mentira.
- A responsabilidade  minha, Ric - foi tudo que ela conseguiu responder para se defender.
- Oh, no estou disputando isso, Lara. Olhe para mim, droga! No pense que pode me excluir agora!
Ela abriu os olhos, sentindo-se incapaz de corrigir o que estava feito. Para ele, tudo era ofensivo.
- No sei como fazer as coisas corretamente - ela falou, sem esperanas.
- O procedimento  muito simples - ele falou. - Vamos a um mdico que eu escolher, Lara, porque no confio mais em voc.
Ela se encolheu. Mesmo sabendo que perdera a confiana dele, doa ser objeto de tanta desconfiana.
- Eu no planejei fazer amor com voc - ela protestou, precisando brigar ao menos contra a acusao.
Ele se ajeitou, um homem alto e poderoso, intensamente formidvel em seu orgulho ferido.
- Voc me chamou na varanda, Lara. Eu j tinha passado do seu quarto.
- Estava com medo de dormir e no ver voc partir de manh. Eu queria...
- Queria que eu mentisse com voc. - Os olhos dele debochavam de qualquer inocncia que ela tentasse demonstrar.
Ela sacudiu a cabea.
- Tudo aconteceu com base no que sinto por voc - falou em resposta.
- O que quer que voc tenha sentido por mim, Lara, no foi suficiente para considerar a possibilidade de compartilhar sua vida comigo.
Ela levantou o queixo, defendendo-se deste julgamento.
- Prenderia voc a uma criana... depois de ter garantido que estava protegida? Voc gostaria dessa situao, Ric?
- Voc tomou todas as decises - ele retrucou. - A rainha... desconsiderando o peo... como se eu no fosse parte do jogo. E acredite em mim... Vou desaparecer para 
sempre se este beb for de Gary. Mas se for meu...
Ele cerrou os dentes. Seus olhos brilhavam intensamente, com uma cruel determinao.
- ...no pense por um segundo sequer que serei privado de conviver com meu filho. Vou brigar com todas as minhas foras para ter o direito a visitas.
Direito a visitas. Claro.
Ele no quereria ficar com ela depois disso. Sua opinio sobre ela era to baixa, que era um milagre ele no estar ameaando pedir a custdia da criana.
Se fosse dele.
- Marque o teste do DNA - ela falou vagamente.
- Me avise que estarei l.
- Tenho sua palavra quanto a isso? - ele perguntou.
- Sim. - Ela mesma debochou. - Se minha palavra significar alguma coisa.
Ele franziu o cenho, demonstrando descrdito.
- Vou marcar uma consulta. No dia, venho busc-la - falou, decisivamente.
- No h necessidade de voc sofrer em minha companhia mais do que o necessrio, Ric. Eu vou fazer o teste. Quero saber tambm. - Ela tentou sorrir. - Eu no podia 
pedir isso a voc antes. Mas agora... - ela suspirou - ...voc deixou sua posio clara. No posso mais deix-lo fora disso.
- No, no pode - ele retrucou.
Todo o tormento por que passara para tomar aquela deciso foi em vo. Ric a detestava e desprezava pela sua escolha, e este era o pior resultado.
- Acho que ns dois devemos esperar que essa criana seja de Gary - ela falou, tristemente. - Ento voc no ter mais nenhuma necessidade de se envolver comigo.
- Voc quer que o beb seja de Gary?
A entonao dele implicava que tal desejo significava a excomunho. Desejar um filho de um homem que abusava dela. Mas era a nica chance de ele se libertar de um 
compromisso de vida inteira com uma criana que no optou por ter.
- Voc no quer, Ric?
Os olhos dele cintilavam, tomados por uma emoo violenta. Falou com uma ponta de amargura que arrasou tudo o que ela fizera de errado.
- Quer saber, Lara? Voc nunca me perguntou o que eu queria. Foi sempre do jeito que voc quis... o que tentei dar a voc. Mas no vou mais dar. Farei o que for 
o certo para mim. E espero que voc tenha a decncia de saber o que  certo.
Ela abaixou a cabea, completamente envergonhada por ter tirado tanta coisa dele e no ter dado nada em retribuio. Mas Deus sabia que no era sua inteno... trocar 
a liberdade dele pela dela. Mas ele nunca veria dessa forma.
- Ligarei para falar da consulta - ele falou, bruscamente.
E saiu.
Lara ficou olhando por um longo tempo para a porta fechada. Desejava que ela pudesse ser aberta novamente, que as coisas fossem feitas de forma diferente. Ric Donato 
voltara para sua vida, o homem que pode ter sido sua alma gmea, e ela arruinou a chance de ficarem juntos em uma relao feliz e apaixonada.
Ela se pegou desejando fortemente que o filho fosse de Ric. Neste caso, ele no se afastaria. Solicitaria o direito a visitas e, talvez, no futuro que seriam obrigados 
a compartilhar, ela poderia faz-lo mudar de opinio a seu respeito.
Tudo dependia do teste de DNA.
Uma batida na porta a despertou. Primeiro, pensou que pudesse ser Ric novamente, e logo respondeu "sim", sem se importar se ele a repreenderia com algum outro problema. 
Qualquer chance de corrigir aquele ponto de vista totalmente negativo que ele tinha dela era bem-vinda, independentemente do quanto fosse doloroso.
Era a governanta, voltando para ver como ela estava
- Est tudo bem, Sra. Chappel?
- Sim. - Ela esboou um sorriso. - Desculpe pela confuso, Sra. Keith.
A governanta franziu o cenho, insatisfeita com ocorrido.
- Esse Sr. Donato... entrou e saiu como um raio, no me deixou lev-lo at a porta.
- No acontecer novamente, Sra. Keith - garantiu Lara, voltando a ateno para a costura, para mostrar que tudo tinha voltado ao normal.
Surpreendeu-se por ter mentido novamente, escondido a verdade. Gary ensinou isso a ela; manter a imagem de que nada estava errado ou as conseqncias seriam desastrosas 
para ela. Mas ela no tinha razo para esconder mais nada.
- Estou grvida - ela desabafou.
- Que timo!
O choque da governanta foi a confirmao do quanto Lara escondeu bem a situao. Pelo menos com relao  gravidez. No foi capaz de esconder completamente a forma 
que Gary conduzia o casamento.
- O Sr. Donato estava chateado porque no contei a ele... e ele tem razes para acreditar que este filho pode ser dele.
- Oh, querida. - O choque virou simpatia. - Voc sabe... se  de seu marido?
Lara sorriu.
- Pode ser, Sra. Keith.  por isso... - Ela suspirou, demonstrando o peso de seu dilema. - De qualquer forma, concordei em fazer o teste de DNA para resolver a questo.
A governanta balanou a cabea.
- Deve ser difcil para voc - falou tristemente. - Posso trazer algo? Ch e bolo?
Ch e bolo... Lara lembrou de... Evelyn!
Ela no perguntou a Ric como ele ficou sabendo da gravidez. Foi irrelevante, pois suas palavras exprimiram um certo conhecimento. Apesar de ela nunca ter admitido 
para Evelyn, de nunca ter discutido a questo, no havia outra possibilidade de Ric saber disso.
Gundamurra...
Lara sentou-se em frente  mquina de costura e olhou para os retalhos de tecido que estavam em sua mo. Peas de um padro. Pelo menos tinha o controle do padro 
do patchwork. No tinha certeza se teria novamente o controle do padro de sua vida.
Em Gundamurra, decidiu que assumiria a responsabilidade pelo que fizera, construiria o prprio caminho. Mas aquela deciso foi arruinada pela fraude que teve de 
manter para Ric.
Mentiras no eram coisas boas. Mesmo com a melhor das intenes, no eram boas. Na prxima vez em que encontrasse Ric... s haveria mais uma vez, se o beb no fosse 
dele. Ela cruzou as mos sobre a barriga, fechou os olhos e rezou...
Por favor, que seja dele... que seja...


CAPTULO 15

Lara j estava esperando na sala do obstetra quando Ric chegou. Desviou os olhos da revista que estava lendo e fitou diretamente os olhos dele, numa tentativa de 
afirmar que tinha palavra. Ela apareceu. Pontualmente tambm. Faltavam apenas dez minutos para a consulta.
Ric balanou brevemente a cabea em aprovao, sentindo-se mais calmo de alguma forma ao se assegurar de que ela estava ali. Ao confirmar seu nome na lista de espera, 
sentou-se ao lado de Lara sem pression-la, mas perto o bastante para poderem conversar particularmente.
No que tivesse algo a dizer. Sentar-se ao lado dela era mais um ato de cortesia, uma vez que entrariam juntos no consultrio. Ao mesmo tempo, era um erro, pois 
ele sentiu a presena dela de uma forma que precisava esquecer. Podia at sentir o perfume que usava, uma fragrncia floral penetrante, que lhe recordava a doce 
sensualidade de beijar seus cabelos, suas orelhas... 
- Ol.
A simples palavra de saudao dela, como se fossem adolescentes novamente, fez com que ele cerrasse os dentes. Ela fechou a revista. Seus olhos estavam colados nos 
dele, olhos azuis como o cu. Ele a detestava...
Mas ela ainda o tocava, provocava um desejo de compartilharem o que tiveram antes... antes de ele notar o quanto ela o usara... e descartara.
- Voc pensou na possibilidade de um aborto? - ele disparou.
Ela se encolheu, mas se recuperou rapidamente, com o queixo erguido de forma desafiadora.
- No, no pensei.
- Se Gary no tivesse morrido, voc teria problemas - ele lembrou.
Ela tinha dor nos olhos.
- Eu tive um beb... apenas trs meses antes de voc me levar para Gundamurra. Ele morreu logo depois de nascer. No podia tirar a vida deste beb, Ric. Independentemente 
do que ocorresse.
-  justo - ele observou, pegando uma revista na mesinha. Precisava de distrao, pois ela o estava afetando.
Fazia quinze dias desde que entrara na casa dela, forando-a a admitir o que ele sabia. Remoeu tanto a rejeio que ela sentiu por ele, at mesmo como pai de seu 
filho, que mal tinha conhecimento de outras coisas. Hoje seria diferente. Ela se submeteu a um desejo dele. E estava to surpreendentemente linda, que doa.
Folheou as pginas da revista, mas no conseguiu se concentrar na leitura. Lembrava-se de como as mensagens dela se transformaram em relatos curtos sobre a vida 
em Gundamurra, depois que soube que estava grvida. Sem dvida, devia estar muito confusa. Na semana que passou, estava muito chateado, a ponto de pensar que ela 
podia querer manter o beb porque poderia ser dele, mas no tinha nada a ver com isso. Era obviamente uma necessidade maternal.
- Perder um beb  algo terrvel, Ric - ela falou, calmamente.
Ele no queria sentir simpatia por ela.
- Certo! - ele falou, olhando severamente para ela. - Ento voc entende que no vou querer perder nenhum filho que seja meu.
Ela balanou a cabea.
Ele viu que a garganta dela se movia convulsiva-mente.
Com voz rouca e olhos preenchidos por uma splica eloqente, ela desabafou:
- Sinto muito por no ter contado.
Ser que sentia? Ric olhou para ela, procurando algum resqucio de mentira.
- No era porque no queria voc na minha vida - ela continuou. - Era porque... no seria justo prend-lo a um compromisso de uma vida inteira quando voc optou 
por no arriscar isso.
Ela parecia sincera.
Ric franziu o cenho e voltou o olhar para as pginas da revista. No tinha resposta pronta para o que ela disse.  claro que se preocupou com proteo. Um rapaz 
decente no podia simplesmente transar com uma mulher sem medir as conseqncias da intimidade sexual. Lara no devia ter mentido sobre isso. Mas... com toda honestidade... 
ele no queria parar. E considerando o momento novamente... se a verdade no tivesse sido falada e ela ainda o quisesse desesperadamente...
- Eu tinha comeado a tomar plulas anticoncepcionais - ela acrescentou, com a voz ansiosa. - Secretamente, pois Gary estava determinado a tentar ter outro filho 
e eu no queria que acontecesse, mas s estava tomando h duas semanas, ento... Acho que foi cedo demais para que funcionassem. Seria outra mentira?
Certamente fazia sentido ela no querer engravidar de Gary novamente, pois seria um lao eterno com ele, com a possibilidade de a criana sofrer tambm. Se estava 
tomando plulas... mesmo que por pouco tempo... ele podia entender que ela desejasse que fizessem efeito. O que significaria que ela no mentira deliberada-mente 
sobre estar protegida. Era mais uma esperana desesperada.
E a esperana morreu em seis semanas em Gundamurra.
Talvez estivesse mal a respeito disso, no podia pensar direito... eliminando-o porque a criana podia ser de Gary, o que significaria que no haveria escapatria. 
Um medo sem fim. E a sensao de que no tinha o direito de arrastar Ric para o inferno.
Ele podia aceitar esse tipo de argumento. Mas depois que Gary morreu... no, no podia perdo-la por t-lo excludo daquela forma. Descartando-o...
- Voc devia ter solicitado o teste de DNA, de qualquer maneira - ele falou friamente. - Se o beb fosse de outro homem, Gary no poderia forar que a relao de 
vocs continuasse.
- Ento ele saberia que fiquei com voc - ela respondeu rapidamente, demonstrando que pensou nisso vrias vezes. - Ele poderia mat-lo... ou mandar mat-lo - ela 
acrescentou. - Gary era muito possessivo.
- Mas ele acabou morrendo, Lara - ele replicou. - E voc continuou a me manter longe de voc.
Os olhos dela demonstravam angstia. Suas faces estavam coradas. Ele desviou o olhar dela diretamente para a revista.
- Essa conversa no faz sentido - ele declarou, quase automaticamente, brigando contra o impulso louco de abra-la e prometer que estava tudo bem agora.
No estava.
- Se os resultados do teste provarem que sou o pai, teremos assunto para conversar - ele acrescentou, limitando o foco de qualquer discusso futura com ela.
O silncio que se seguiu provou que ele foi eficaz.
Mas Ric no conseguia deixar de remoer o pensamento sobre as tentativas de Lara de esclarecer vrias questes pertinentes. O pensamento dele insistia no argumento 
de no querer prend-lo em um compromisso depois que ele optara por no arriscar ter um beb com ela.
O golpe da barriga.
Com exceo de que ele jamais consideraria isso um golpe.
E ela devia ter falado com ele.
Talvez porque ela no quisesse ficar presa a outro homem. O que no dizia muito quanto a qualquer sentimento positivo com relao a ele. Mas... como ela pde responder 
to positivamente quando fizeram amor, se no tivesse bons sentimentos por ele, se no demonstrasse tanto contentamento no final?
A recepcionista chamou os dois.
Ric deixou a revista de lado e se levantou. Moveu-se instintivamente para ajudar Lara, apesar de ela no sentir incmodos com a gravidez. Na realidade, as roupas 
que vestia - uma saia naval com uma jaqueta sobreposta a uma camisa tambm naval - disfaravam a gravidez. Ela se levantou com a mesma graa que ele sempre admirara.
Ainda assim, as mos dele ficaram coladas no cotovelo dela durante o encontro com o obstetra. Um certo senso de possesso latente segurava as emoes dele, desejando 
que ela fosse sua Lara, a me de seu filho. Era impossvel eliminar a sensao de que eles compartilharam uma conexo e que de alguma forma a criana era resultado 
disso.
Havia duas cadeiras em frente  mesa do mdico. A separao forada ajudou Ric a se concentrar no objetivo de estarem ali. O teste de paternidade foi explicado, 
Ric optou por fornecer uma pequena amostra de sangue. Lara fez a mesma opo, mas tambm teria que sofrer um procedimento chamado amniocentese, em que uma agulha 
seria inserida na parede abdominal para extrair lquido amnitico. Isso era necessrio para fazer a anlise citognica. Em geral, os resultados dos testes demoravam 
cinco dias para sair, e podiam ser enviados por correio para ambas as partes.
Depois que a amostra do sangue de Ric foi coletada, ele esperou do lado de fora a concluso do procedimento em Lara, esperando que ela no ficasse chateada com isso. 
Uma agulha era apenas uma agulha. No havia razo para se preocupar. Mas ela podia estar mais sensvel com tudo o que se relacionasse ao beb, depois que teve o 
natimorto. No gostava da idia de v-la preocupada com o atual, o que fez com que ele mesmo se preocupasse.
Ser que ela estava se cuidado adequadamente?
No deveria parecer maior com quatro meses e meio de gravidez?
Estaria se alimentando adequadamente?
Ric ruminava essas idias quando Lara saiu do consultrio.
- Eu levo voc para casa - ele disse, pegando seu brao novamente e conduzindo-a pela sala de espera.
- O pagamento... - Ela fez um gesto na direo da recepcionista.
- J paguei. - Ele olhou para ela de forma inquiridora. - Est tudo bem?
- Claro. No foi nada, somente uma agulhada.
- Algumas pessoas tm problemas com agulhas. Cuidarei para que chegue seguramente em casa, Lara.
Ela no protestou.
Esperou at que ela se acomodasse no carro antes de ligar o motor, parando para pensar aonde gostaria de levar Lara. Detestava ter que lev-la para a casa que Chappel 
comprara, mas ela optou por ficar l at a venda. Achava ligeiramente irnico o fato de ela ter confiado nele para se livrar daquele cretino, na ltima vez que andou 
naquele carro. Ali estava ele, devolvendo-a par a priso dourada, possivelmente grvida de seu marido.
Apesar de o filho poder ser dele.
Queria que fosse dele.
No dava para negar, independentemente do aborrecimento que teria.
- Presumo que voc tenha acompanhamento medico para a gravidez - ele falou, mantendo os olhos firmes na rua.
- Sim. Fiz uma ultra-sonografia. No h nenhuma., anormalidade.
- Ento est tudo bem?
-  o que o mdico diz.
- Voc sabe o sexo?
- No quis saber. Se algo desse errado... - Ela respirou fundo. - Da ltima vez, eu sabia que era uma filha. Tinha at um nome. J era uma pessoa para mim...
Ric apertou a mo no volante. A tristeza na voz dela... a necessidade de se proteger de mais desgosto, ela passara por muita coisa... ele se sentiu mal por no haver 
conduzido a questo com mais considerao e t-la julgado e condenado por exclu-lo. Um animal acuado se isola, tratando amigos e inimigos da mesma forma, somente 
para evitar a dor.
- Voc no tem do que ter medo, de minha parte, Lara - ele falou calmamente. - Se o beb for meu, farei meu papel. No quero que haja nenhum conflito entre ns.
Ela no respondeu.
Um olhar de relance pegou as mos delas apertadas sobre as pernas, demonstrando sua tenso interior.
- Lara? - ele pressionou, precisando saber se ela continuaria considerando-o um tirano que s queria exigir coisas dela. Ele no era assim. Seria razovel, tentaria 
se adequar ao mximo ao que ela quisesse. Desde que fosse razovel tambm. De forma alguma seria excludo da vida do filho. Ele tambm tivera um pai ruim. Mas seria 
um bom pai, presente quando necessrio, disposto a dar muito amor em vez de abuso.
Um suspiro pesado assinalou uma sombra no corao de Lara.
- Se o beb for seu - ela repetiu em um tom desafiador uniforme. - Sim, espero que cumpra seu papel, Ric, j que ser o pai. E no, no tenho medo de voc.
Ele podia ouvir a lgica nas entrelinhas do que ela falou. No daria suporte se o filho fosse de Gary. Tinha a inteno que ele sasse de sua vida to rapidamente 
quanto entrou. No havia futuro juntos.
As aes anteriores de Lara provaram que essa era a deciso: tir-lo de sua vida. Mas agora ele sentia que no era o que queria. Ou ele estava sendo um tolo?

No era culpa dela carregar um beb de Gary. Sem dvida, aquilo foi forado. No teve escolha. Mas ela o escolheu para apagar as lembranas de seu marido. Quanto 
isso significava?
- Voc no vai se importar se eu tiver direitos de visita? - ele perguntou.
Outro suspiro.
- No, no me importarei. Sei que voc ser um bom pai, Ric.
Mas ser que ele era bom o bastante para ser pai do filho de outro homem? Um homem que desprezava?
De qualquer forma, o beb era de Lara. Ela o queria, de qualquer maneira. A questo crtica era... ela desejava Ric, deixando tudo de lado? Sua rejeio inicial 
provava que no. Ou que toda a situao era difcil demais para ela encarar. Seria mais fcil voltar atrs e seguir sozinha. O que tambm significava que Ric no 
era importante o bastante para que lutasse por ele. Ou talvez seu casamento tenha sido to doloroso que no quisesse tentar novamente.
Ric se atormentava com esse pensamento ao se aproximar da manso Vaucluse. Lara se inclinou para a frente, pegou a bolsa, abriu-a e apanhou as chaves que o trancariam 
fora de sua vida novamente. Todos os msculos do corpo dele se retesaram. Freou mais abruptamente do que deveria, espalhando poeira pelo ar.
Ela esperou que ele a ajudasse a sair do carro. Ric o fez com relutncia, observando a mecha de cabelo sedoso cair sobre a testa quando ela inclinou a cabea, ao 
sair do carro. Sentia um n no estmago. A urgncia por lutar pelo amor daquela mulher era como uma loucura em sua mente, apesar de um vestgio de sanidade ter insistido 
para que no forasse. O amor existia ou no.
Fechou a porta do carro e a acompanhou at as escadas. Ela no falou nada. Ele no falou nada. Pararam em frente  porta. Lara olhou para as chaves em sua mo.
- Obrigada por me trazer, Ric - ela murmurou. - Acho... acho que aqui dizemos adeus... a menos que o teste de DNA prove que voc  o pai.
Seu tom hesitante parecia trazer uma tristeza que demandava um final diferente. Foi o encorajamento de que Ric precisava para aproveitar o momento e perguntar:
- Voc quer que seja adeus, Lara?
Lentamente, muito lentamente, os clios dela se ergueram e o sentimento comovente que seus lindos olhos azuis refletiam arrasou o corao dele.
- Eu no suportaria, Ric, se voc no gostasse de meu beb.
Era isso.
Ela balanou a cabea, desviou o olhar, colocou a chave no cadeado, abriu a porta, entrou, excluindo-o. Ele apostou tudo para que o beb fosse dele. E no foi o 
suficiente.


CAPTULO 16

Era o sexto dia.
O obstetra falou que o resultava demorava cerca de cinco dias.
Ento hoje ela o receberia em casa.
Como em todas as manhs, Lara foi para o quarto de costura, determinada a se manter ocupada, fazendo o que estaria fazendo se Ric nunca tivesse sabido da gravidez. 
Mas terminou a colcha no dia anterior, e no tinha foras para comear outra coisa, no enquanto no recebesse o resultado do exame.
Sentou-se para escolher tecidos que pudessem ficar bons para as almofadas, um exerccio em vo. No conseguia se concentrar em nada alm da notcia que esperava, 
a notcia que podia trazer Ric Donato de volta  sua vida ou afast-lo para sempre.
Ele se importava com ela mais do que Lara pudesse imaginar, e seu corao sangrava diante da possibilidade de perder o cuidado de Ric. Acabou com tudo tentando deix-lo 
livre, e tomou decises como se a questo no fosse importante para ela mesma. Como se ele no fosse importante para ela. Esta foi a maior das mentiras. Saiu do 
quarto de costura e caminhou at o do beb; parou diante da nova colcha que agora estava sobre o bero, pronta para o filho to esperado. O desejo de que ele fosse 
de Ric era desesperador agora. Sabia que ele faria de tudo para ser um bom pai, e talvez... talvez no futuro, o carinho pela criana poderia se estender a ela, que 
sentiria novamente... a sensao de ser sua mulher, to importante para ele, a ponto de fazer qualquer coisa por ela. E fez.
Seus olhos se encheram de lgrimas. No havia chances de um futuro ao lado de Ric, caso no fosse o pai. Ele deixou tudo to claro. E ela no podia culpar ningum, 
a no ser a si mesma, que escondeu a verdade, por estar muito envergonhada para contar. Tarde demais quando o fez. Ele jamais aceitaria o beb, se no fosse o pai.
Tinha que se concentrar nesse pensamento.
Era sua nica chance de no se despedaar totalmente. Tinha que manter-se forte pelo beb, deixar Ric partir, caso fosse necessrio.
- Sra. Chappel...? - chamou a governanta sem encontr-la no quarto de costura.
- Estou aqui, Sra. Keith. Admirando meu trabalho - acrescentou, adicionando uma explicao.
A porta do quarto do beb estava aberta. Lara piscou vrias vezes para limpar os olhos e virou o rosto para a governanta, que levou apenas alguns segundos para caminhar 
pelo corredor. Ela apareceu pela porta, carregando um envelope que parecia oficial, e Lara sentiu o corao disparar instantaneamente.
- Acabou de chegar, Sra. Chappel. Tive que assinar. Assinar... devia ser...
Lara no conseguiu se mover para pegar o envelope, saber o contedo que decidiria seu futuro. A Sra. Keith teve que entrar no quarto e entregar a ela, quase forando 
a aceitao do envelope. Lara segurou-o, apenas um pedao de papel, apesar do peso que trazia. Ficou olhando para a impresso no canto do envelope: Centro de Diagnsticos 
de DNA.
- Devo trazer o ch da manh aqui, Sra. Chappel? Ela mal ouviu a voz.
- No. - At mesmo sua voz parecia distante. - Vou tomar ch no ptio, perto da piscina, Sra. Keith. Sentada sob o sol. - Apesar de ser pouco provvel que conseguisse 
se aquecer. O frio de sua espinha era profundo.
A governanta se retirou, deixando Lara sozinha. Porque ela precisava saber o que havia no envelope. Ch e simpatia, pensou Lara, apesar de nada ser dito. A Sra. 
Keith aguardaria at ela saber o que esperar do futuro: um pai que visitaria o beb... ou nada.
A pergunta podia ser respondida agora. Tudo o que Lara tinha a fazer era abrir o envelope, ler o resultado do teste de DNA. Faa isso, ela repetia para si mesma, 
mas seus dedos no obedeciam ao pedido. Pareciam entorpecidos, sem obedecer aos comandos de seu crebro. Ou havia uma grande resistncia em sua mente, apagando o 
pedido.
Desceu as escadas e foi para o ptio, carregando o envelope ainda fechado. O cu estava azul. Sem nenhuma nuvem. Se no fosse o frio, podia ser um dia de vero.
Mas era inverno para sua alma, e o pr-do-sol no faria nada para dispers-lo.
Ps o envelope na mesa onde sentou e contou a verdade sobre seu casamento para Ric. Ele teve que for-la a contar a verdade o tempo todo. Mesmo agora, ela no queria 
enfrentar a realidade: o teste de DNA. Depois que a Sra. Keith servisse o ch, falou para si mesma. Ento ficaria sozinha com o envelope, mais pronta para enfrentar 
o que fosse necessrio.
A lembrana de Ric naquela primeira manh a levou a olhar para o local em que ele ficou parado, observando. Ser que ele realmente olhou para ela, ou viu apenas 
as lembranas que tinha dela, lembranas de um tempo bem mais inocente, quando parecia que tinham nascido um para o outro?
At mesmo naquela poca ela escondeu a verdade, evitando contar aos pais sobre Ric, sabendo que desaprovariam um relacionamento com ele e fariam de tudo para cort-lo 
de sua vida. E isso, na realidade, serviu para Ric acreditar que no era bom o bastante para ela, roubando o Porsche...
Ela que no era boa o bastante para ele.
Ele se transformou em um homem que qualquer mulher no mundo teria orgulho de ter ao lado, e no somente porque era lindo e rico. Era to mais do que isso... to 
mais. E ela no teve a perspiccia de ver alm da fachada charmosa de Gary Chappel, onde havia um corao cruel e calculista.
Ela no merecia Ric, no merecia o carinho dele. Foi o bastante, mais que o bastante, ele t-la livrado de Gary, para que pudesse fazer algo positivo de sua vida.
E lev-la a Gundamurra. Isso foi bom para ela tambm. Tinha muito a agradecer. Apesar de nada disso aliviar a dor que sentia. Abraou-se, tentando fazer a dor passar. 
O beb faria passar a sensao de perda. Seu beb...
Passos no ptio atrs dela... a governanta trazendo a bandeja com o ch... o envelope fechado ainda estava na mesa. Quais foram as palavras infames de Maria Antonieta 
antes de ser condenada  guilhotina? Deixem-nos comer bolo.
- Apenas deixe aqui, Sra. Keith - instruiu Lara sem olhar para trs. - Vou me servir quando estiver com vontade.
No obteve resposta.
No ouviu o som da bandeja sendo colocada sobre a mesa.
No ouviu passos se afastando.
Silncio total.
Ser que a governanta estava olhando para o envelope fechado?
Bem, pelo menos ele transmitia a mensagem de que, por enquanto, Lara no tinha do que falar. Sendo absolutamente discreta, ela seguiria as instrues e se retiraria. 
A qualquer momento. Ento Lara pensou em encarar o que devia ser encarado. Sem fugir mais.
- Voc ainda no sabe.
O timbre daquela voz - a voz de Ric! - vibrou em cada clula do corpo de Lara. Ric... aqui! Meu Deus, o que isso queria dizer...?
Seu corao pulou de felicidade. Sentiu uma grande esperana em sua mente. Virou-se, atordoada com a idia de ver Ric em sua vida de forma contnua. Devia ser o 
pai do beb. No teria ido, caso contrrio.
Mas o rosto inflexvel dele fez com que reavaliasse o prazer de v-lo. Os olhos negros queimavam como carvo, e ela sentia o fogo chamuscar sua alma.
- Ainda no sei tambm - ele falou, pegando no palet um envelope igual ao dela. Ele colocou em cima da mesa. No tinha sido aberto.
Lara ficou parada, em choque, diante da confuso. No entendia aquilo. Ele queria a prova da paternidade, de qualquer forma. Ela que se danasse. No fazia sentido 
ir na casa dela sem ver o resultado antes.
- Por que, Ric? - perguntou, simplesmente.
- Porque voc  mais importante, Lara - veio a resposta surpreendente. - Eu aceitaria... e amaria... qualquer filho que voc tivesse... porque  parte de voc.
Amaria... a mente confusa dela se prendeu a essa nica palavra. No conseguia se ater ao resto, mas achava que significava que ele ainda tinha carinho por ela, que 
ela era especial para ele.
- A pergunta ... - ele prosseguiu, lentamente, sondando - ...estou me iludindo sobre o que voc sente por mim?
Ela no conseguia falar. Uma enorme emoo bloqueava sua garganta. Ele se moveu em sua direo. No passou pela cabea dela caminhar na direo dele. Todos os tomos 
de sua energia estavam concentrados em observ-lo, tentando sentir o que ele sentia. O anseio dentro dela era to grande que no tinha certeza se interpretara mal 
a mesma necessidade nele... a necessidade de ter e abraar, pois apesar de todas as diferenas entre eles - do passado e do presente -, despertaram algo um no outro 
que riscou o resto do mundo.
As mos dela estavam unidas em frente ao seu corpo, protegendo instintivamente o beb que carregava no ventre. Ele as pegou gentilmente e colocou sobre seus ombros. 
O corao dela galopou. Tudo dentro dela estremecia com a fora do desejo que ele despertava.
- Quando fizemos amor... - ele murmurou, com o olhar mais suave agora, fazendo com que ela se derretesse, aquecendo o sangue de suas veias, que corriam a uma velocidade 
catica - ... era a mim que voc desejava, certo, Lara? No era s porque eu estava ali... e podia atender  sua necessidade?
De alguma forma, ela conseguiu falar.
- S voc poderia ter feito aquilo, Ric - ela respondeu, e a verdade sobre aquela noite, que manteve muito bem guardada, veio  tona. - E a necessidade... a necessidade 
era de ter voc. Pelo menos uma vez na vida. Porque eu podia perd-lo novamente. E no poderia suportar... no ter tido voc em toda minha vida, quando aquilo ainda 
era possvel.
Ele respirou fundo, expandindo o peito. Lara podia sentir a tenso nos msculos rgidos dos ombros dele, sabia que o que falou o atingiu em cheio. Mas era a verdade 
e queria muito que ele acreditasse.
- No era para... apagar o que Gary tinha feito?
- Isso tambm - ela admitiu. - Mas eu no teria dito nada para fazer voc me dar... o que voc me deu, Ric. Desculpe por tudo ter ficado to complicado... com a 
gravidez.
- No tem importncia - ele falou.
- No seria justo...
Ele colocou um dedo nos lbios dela.
- No h nada de justo no amor e na guerra, Lara. Apenas temos que sobreviver aos problemas. E acreditar no que estamos fazendo.
O dedo se moveu e chegou ao rosto dela, traando seus contornos antes de encontrar os cabelos, que caam por trs da orelha. Lara ficou paralisada pelo toque, sentindo 
a pele viva sob o carinho dele. Sempre foi assim com Ric. Davam-se as mos quando eram adolescentes... compartilhavam aquele beijo... a experincia de intimidade 
total com ele...
- No podia suportar o fato de voc ser uma esposa violentada - ele falou suavemente. - No a minha Lara...
Dele? Ele ainda a considerava dela?
- Voc era como um sonho inatingvel para mim, at que vi aquela foto - ele prosseguiu, com a voz cheia de emoo. - Mas o que sinto por voc agora  muito real. 
E se o que voc sente por mim for real...
A necessidade nos olhos dele aumentou a onda de desejo que a atingia. Acariciou o rosto dela enquanto se aproximou mais e mais. Quando os lbios dele cobriram os 
dela... os cobriram... se moveram... o doce contentamento de se conectar com ele novamente disparou uma resposta surpreendente. Ela o beijou com toda alma, corao 
e mente, que danavam de felicidade... Ric a desejava, seja como fosse.
Amava aquele homem. Amava o que ele era. Abraou a cabea dele, unindo-o a ela. Sua boca expressava toda a paixo que sentia por ele. Seu corpo se contorcia contra 
o dele, revelando uma proximidade que no teria fim. Ele ficaria com ela... a amaria... amaria o beb.
E entre os beijos, os olhos dele brilhavam ao fitar os dela, vendo, acreditando. Era real... o sentimento que os dois tinham. Abraou-a, as mos se moveram sobre 
ela de maneira possessiva, carinhosa, apaixonada, e o brilho daquele toque entrou nos ossos dela, um calor incandescente que afastou qualquer inverno.
- Venha morar comigo, Lara - ele murmurou. - Preciso de voc comigo.
No ali, com as sombras de um casamento fracassado, mas num local em que pudessem iniciar uma vida juntos.
- Sim - ela concordou, transbordando de contentamento.
Ele sorriu, afastou-se e pegou a mo dela. Lara olhou para ele diante dessa forma simples de se unirem, que evocava lembranas, sensaes novamente... o lao que 
parecia juntar as vidas em um local mgico que pertencia somente aos dois.
- Costumvamos caminhar assim - ela falou, sorrindo de volta para ele.
- Eu lembro.
- No  fantasia, Ric.
- No, no . - Ele roou o polegar no quarto dedo dela. - Voc usar minha aliana de casamento, Lara?
Ela ficou sem ar momentaneamente. Uma incredulidade extasiante atingiu seu pensamento. Tanta coisa... to rpido? Mas a proposta determinada que o levou ali ainda 
brilhava em seus olhos, que agora incandesciam, e foi falada sem equvocos.
- Me sentiria muito honrada de us-la, Ric - ela falou, num tom moderado.
- Ento acho que devemos nos casar o quanto antes. Antes do nascimento do beb.
- O beb... - Ela olhou para os envelopes sobre a mesa. Sua mo apertou a dele convulsivamente, indicando uma grande ansiedade. - Ric, voc tem que saber.
- No. Deixe para l. Prometo que no far diferena.
- Mas faz. No falei para Victor Chappel sobre minha gravidez, mas se eu tiver um beb que se parea com Gary ou algum da famlia... - Ela sacudiu a cabea, preocupada. 
- Ele no vai deixar passar, Ric. E se voc se casar comigo, entrar na briga tambm.
- Lara... sua briga  minha briga. No vou deix-la sozinha novamente com esse Victor Chappel - ele falou calmamente.
- Ele no vai desistir. Isso persistir... - O medo tomou conta de sua radiante felicidade e comeou a arras-la. - Ele conseguir algum mandado judicial que me 
impea de deixar o pas com a criana. O que no seria problema se eu estivesse sozinha. Mas sua empresa o leva para todos os lugares, Ric, e eu no poderia acompanh-lo. 
No irei e deixarei...
- A empresa pode ser gerenciada por outras pessoa - ele retrucou. - Posso comear outra coisa.
A confiana que ele tinha para resolver todos os problemas a acalmou um pouco. Contudo, no podia deixar de sentir que isso seria pedir demais a ele, que no tinha 
vivido com os Chappel como ela. Olhou novamente para os envelopes, levada por uma sensao horrorosa de inevitabilidade de que traria problemas para Ric.
- De qualquer forma, Victor insistir em um exame de DNA - ela murmurou. - Preciso saber onde estou pisando. No vou esconder isso. No vou. - Ela ergueu os olhos 
na direo dele. - Se quiser que eu prossiga com voc, precisa ser com a verdade. Ns dois saberemos com o que lidaremos.  justo, no ?
Ele pesou o argumento dela e respondeu lentamente:
- Desde que voc compreenda que no vou desistir de me casar com voc, Lara. Seja o que for que precisemos fazer para ficar juntos... sou seu homem.
O homem dela. Sim, era.
Em todos os sentidos.
Seja qual fosse o futuro, nunca deixaria de valorizar o sentimento dele por ela, ou o dela por ele.
- Obrigada - ela falou, reconhecendo o presente extraordinrio que era o amor dele. - Obrigada por voltar para a minha vida. Obrigada por me resgatar e me fazer 
sentir uma pessoa que vale a pena. Obrigada por me deixar ficar ao seu lado. Prometo que nunca vou desmerecer isso, Ric. Seja como for.
Ele respirou fundo e apontou para a mesa.
- Ento vamos encarar a verdade.
Ela olhou para os envelopes lacrados. Disse a si mesma que no os magoariam. Ela e Ric tinham superado o problema. Determinada a provar isso, caminhou at a mesa, 
pegou o envelope mais prximo, abriu, retirou o contedo e leu o resultado do teste.
E foi como se o mundo tivesse mudado. Todos os conflitos dos quais tinha medo simplesmente... desapareceram. Ela olhou para Ric, vendo-o como a fora que movia tudo 
que era correto para ela. At mesmo isso. Especialmente isso.
-  voc. Voc  o pai do meu beb.. 
- Nosso beb - ele corrigiu.
Ela riu. E ento chorou. Mas eram lgrimas de felicidade, e no lgrimas a serem escondidas. Ric as beijou , e os dois sorriram.
- Venha para a minha casa agora? - ele pediu.
- Estou em casa com voc, Ric.  assim que sinto.
- Sim.  assim que sinto tambm.


CAPTULO 17

Natal em Gundamurra...
Ric mal podia esperar por isso.
- Preciso mostrar voc a Patrick - ele falou ao beb que embalava nos braos, de olhos fechados mas nem tanto, e que batia os espessos clios negros.
O movimento da cadeirinha de balano sempre garantia o truque: interrompia o choro e colocava o beb para dormir. Ric automaticamente usava o p para manter o balano, 
enquanto olhava para a vista diante dele. Para ele, o deck do lado de fora da sala principal era um dos melhores locais da casa que comprara para Lara. Era direcionado 
para o norte, pegando sol em todo o inverno, e tinha uma vista da baa Balmoral com os pinheiros de Norfolk na orla e a marina cheia de iates que chegavam e partiam, 
o que fazia estar ali um constante prazer.
Lara adorava tudo na casa. Ainda em tempo de arrumao da moblia, aproveitava para escolher tudo o que pensava que tinha sido feito para eles. Ric ficava contente 
s de v-la contente. Balmoral era bem perto do per de Circular Quay, o suficiente para ele ir ao escritrio quando precisasse. Mas estava tirando uma folga, para 
aproveitar a licena paternidade que dera a si mesmo.
Agora, era seu dever dar ateno ao beb enquanto Lara e a Sra. Keith faziam as malas para a viagem para Gundamurra.
- Sou o melhor balano, beb - ele falou, num auto-reconhecimento de sua atuao.
O elogio a si mesmo o fez lembrar de Johnny, o rei da msica country. Ric sorriu quando lembrou de Johnny correndo at o hospital para ver o novo Donato. Levou o 
violo, cantou a balada sobre o menino, escrita em Gundamurra... "Seu esprito no descansaria... enquanto no trouxesse aquela mulher para casa".
Havia vrios outros versos, mas esse era o refro, repetido vrias vezes. Toda a enfermaria do hospital ficou do lado de fora do quarto de Lara para ouvir Johnny 
cantar e se unir a ele nessas duas linhas. Totalmente constrangedor. Mas Lara adorou. E Mitch encorajou Johnny a gravar a msica e dar a todos eles uma cpia no 
Natal. Sem dvida, Evelyn tambm adoraria, tocaria inmeras vezes, especialmente por Gundamurra estar na letra.
Patrick sorriria.
Patrick... o nico pai verdadeiro que os trs tiveram. Sempre l para eles, se precisassem de alguma coisa. Sempre os ajudando, quando eles pediam.
- Serei como ele - prometeu Ric para o filho. - Pode contar comigo para ajud-lo a construir sua base, para que possa seguir seu caminho por conta prpria, da forma 
certa. Sempre estarei aqui para dar suporte, estender a mo amiga...
Estava contente por ter levado Lara a Gundamurra, por ela ter passado aqueles meses com Patrick. Apesar de ter desenvolvido uma relao melhor com a me, e mesmo 
agora que Ric era aceito por Andra Seymour, no havia discusses sobre o destino deles no Natal. O rancho de ovelhas no deserto agora era um local especial para 
os dois.
Seria timo esse ano. Mitch iria tambm, levando Kathryn Ledger com ele, o que certamente representava um sinal de que a relao deles estava ficando sria. Apesar 
de Mitch ser bem circunspecto. No se doava muito. Podia estar simplesmente levando Kathryn para Gundamurra para ver como reagiria. Um teste. Mitch tinha um hbito 
de examinar tudo. Era um advogado por natureza, bem como por profisso.
Se fosse um teste, Ric esperava que Kathryn passasse. Ele gostava dela. Lara tambm. Apesar de amor ser diferente, ele sabia bem. Se Johnny e Mitch um dia se casassem, 
gostaria que encontrassem o mesmo tipo de amor que encontrou com Lara. Fazia uma diferena enorme em sua vida.
- A Sra. Donato est pronta para o beb agora - avisou a Sra. Keith.
- Certo. Estamos indo - respondeu Ric, pausando o movimento da cadeira lentamente.
A governanta estava mantendo a porta aberta para que ele entrasse. Ela sorriu para os dois, e ele retribuiu o sorriso.
- Dormiu rpido - ele tripudiou, olhando para o beb. - Est vendo o que o toque de um pai pode fazer?
Ela arqueou a sobrancelha, demonstrando satisfao.
- Certamente o movimento da cadeira no ajudou, Sr. Donato.
- Ela est aprendendo o ritmo certo, Sra. Keith.
- Um conhecimento instintivo - ela concordou, piscando o olho.
Definitivamente era uma boa mulher para ter prxima  famlia, pensou Ric. Lara tinha razo quanto a isso. Uma presena muito til e agradvel na casa. Ajudava Lara 
com o beb tambm, pois tinha muita experincia com os prprios filhos.
Caminhou at o quarto do beb, onde sabia que Lara estaria pronta para aliment-lo. Ela estava colocando roupa limpa na cmoda quando ele entrou. Virou-se para ele 
e sorriu, enquanto desabotoou rapidamente a blusa e o suti para a amamentao.
- As malas esto prontas e ns tambm estamos prontos para partir. Assim que terminar de amamentar, podemos ir.
- Sem pressa - ele falou. - Johnny esperar por ns.
Os lindos olhos azuis dela brilharam de empolgao.
- Ainda bem que viajaremos no avio particular dele. Tenho tantos presentes de Natal para levar.
- Este  o melhor de todos - Ric falou, sorrindo para o filho deles... Patrick Alexander Donato.
- E  to legal que ele v passar o primeiro Natal em Gundamurra - declarou Lara em contentamento.
- Ele no vai se lembrar.
- Mas ns lembraremos. Voc est levando a cmera, no est?
- Claro.
- Tenho certeza de que voc vai registrar tudo de forma brilhante, Ric.
Ela pegou o filho, que acordou instantaneamente com a troca de contato, cheirando ao redor para sentir o odor do leite. Mal tinha um ms de idade e se atirava nos 
seios de Lara no momento em que ela o desnudava. Esse  meu garoto, pensou Ric com orgulho ilusrio, observando Lara acomodada na cadeira de balano em que o amamentava.
Meu filho... minha esposa... nossa casa... e Gundamurra no Natal.
A vida no podia ser melhor.
Exceto... porque esperava que eles tivessem uma filha na prxima vez, para recobrar a menina que Lara perdera. E ele daria a ela o prazer de dar o nome  filha deles.
Ela insistiu para que o nome do filho fosse Patrick, o homem que salvou suas vidas, Alexander, pois o mundo devia ser conquistado de uma forma bastante pessoal. 
Ele ensinaria ao filho que os obstculos estavam apenas na cabea dele.
Ele e Lara podiam ter ficado juntos h muito tempo, se ele no tivesse colocado a barreira inatingvel em sua cabea. Pouparia muito sofrimento tambm. Mas no podia 
reconstruir o passado, apenas fazer o melhor no presente e no futuro... o resto das vidas deles.
Lara olhou para ele com os olhos brilhando suavemente.
- Amo a vida com voc, Ric. Obrigada por fazer isso acontecer.
- S podia acontecer com voc. Amo voc, Lara. Sempre amarei.
- Eu digo o mesmo. Voc sabe disso, no sabe? No havia dvida sobre o amor nos olhos dela.
- Sim, sei. Sua Lara... Sempre foi... Sempre ser.


Prximos Lanamentos

Paixo
MARCAS DO PASSADO - Emma Darcy
Mitch Tyler  um advogado destemido e bem-sucedido em Sidney, que deixou a infncia problemtica para trs. E ele se sente incrivelmente atrado por Kathryn Ledger, 
mas ela est noiva de outro homem. Mitch se desespera ao perceber que ela precisa de proteo. Agora, a nica coisa que ele tem a fazer  impedir este casamento.

ESPOSA POR ACASO - Helen Bianchin
O bilionrio Manolo Del Guardo precisa de algum para cuidar de sua filhinha de seis meses o mais rpido possvel! Desesperado, ele prope a Ariane Celeste, uma 
reprter de TV de Sidney, enviada para entrevist-lo, que cuide do seu beb temporariamente. Mas Manolo acaba decidindo que quer Ariane como sua esposa e me de 
sua filha para sempre.

PROCURA-SE UMA AMANTE - Penny Jordan
Leon Stapinopolous, um magnata grego bem-sucedido, estava prestes a adquirir uma das lojas de perfume mais antigas da Frana e a oferta inclua tambm a designer 
de perfumes Sadie Roberts. Apesar de Sadie ser uma garota difcil, o charme e a paixo de Leon mexe com os sentidos dela, mais do que qualquer fragrncia!
